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História de um astrônomo

Percorri quase 50 mil km e atravessei mares, só para observar uma nuvem trágica

Vanessa Barbara, O Estado de S.Paulo

26 Dezembro 2016 | 04h00

O protagonista desta história de Natal é Guillaume Le Gentil, astrônomo francês que tinha um sonho. Em março de 1760, ele deixou a família em Paris e empreendeu uma viagem até Pondicherry, colônia francesa na Índia, de onde pretendia acompanhar o trânsito de Vênus. 

(Trata-se de um raríssimo evento astronômico que ocorre quando a silhueta do planeta pode ser observada da Terra, a olho nu, passando diante do Sol. Os últimos aconteceram em 2004 e 2012; agora só em 2117.)

O obstinado astrônomo chegou às ilhas Maurício em julho, mas, nesse meio tempo, a França entrou em guerra contra a Inglaterra e não havia jeito de seguir viagem. Só em março do ano seguinte ele conseguiu embarcar numa fragata em direção à Índia e, apesar de faltarem poucos meses para o fenômeno, programado para o dia 6 de junho, calculou que chegaria a tempo.

O navio foi desviado da rota por uma tormenta e passou cinco semanas à deriva. Quando enfim se aproximava de Mahé, na Índia, o capitão recebeu a notícia de que a Inglaterra havia tomado Pondicherry, e, portanto, seria preciso navegar de volta a Maurício. Foi o que fizeram. No propalado dia do trânsito, o céu estava limpo, mas Le Gentil não pôde fazer suas medições porque estava em alto-mar e o navio balouçava excessivamente.

Como já chegara tão longe, achou que fazia sentido aguardar o trânsito seguinte, dali a oito anos, em 1769. Viajou pela costa de Madagáscar e, como bom naturalista, aproveitou para se dedicar a estudos de geografia, física, navegação, ventos e marés. Em 1766, resolveu que observaria o fenômeno de Manila, nas Filipinas. Mas, ao aportar no local, deparou-se com a desconfiança do governador espanhol, que o acusava de ser um espião. Em março de 1768, Le Gentil fugiu para Pondicherry, que àquela altura já havia sido devolvida à França. Lá construiu um observatório nas ruínas de um forte. 

Conforme a data se aproximava, sucediam-se belas manhãs de céu claro e previsão irretocável. Na véspera, Le Gentil brindou o governador de Pondicherry com observações do planeta Júpiter. O dia 4 de junho de 1769, por fim, amanheceu nublado e o astrônomo não enxergou nada. “Senti-me amaldiçoado e me atirei à cama, sem conseguir fechar os olhos”, relembrou. Uma inexplicável tormenta obscureceu o céu durante todo o decorrer do trânsito. Imediatamente em seguida, o tempo abriu e o Sol brilhou pelo resto do dia.

“É essa a sina que às vezes acomete os astrônomos”, desabafou Le Gentil em seu diário. “Percorri quase 50 mil quilômetros e atravessei uma amplidão de mares, exilando-me de minha terra natal, só para observar uma nuvem trágica postando-se diante do Sol no momento exato da minha observação, afastando-me do fruto de minhas dores e de minha exaustão…”

Para piorar, o céu de Manila esteve absolutamente claro naquele dia.

De forma até que previsível, Le Gentil caiu em depressão. Também sofreu uma forte disenteria que lhe atrasou a viagem de volta. Posteriormente, seu navio foi pego por uma tempestade e naufragou nos arredores da ilha Bourbon, onde teve que aguardar pelo resgate. Na tragédia, perdeu todos os espécimes que havia coletado. 

Essa é a história de Natal que eu gostaria de contar: a saga do astrônomo mais azarado do mundo. Ele chegou a Paris em outubro de 1771, após 11 anos e meio de viagem, e lá descobriu que não só perdera o trânsito de Vênus, mas também todos os seus bens e a esposa, além de ter sido dado como morto. Como se não bastasse, fora destituído de seu posto na Academia Francesa de Ciências.

Porém, no fim das contas, Le Gentil recuperou os bens, casou-se de novo, teve uma filha e viveu aparentemente feliz por mais 21 anos. Seu nome hoje batiza uma das crateras da Lua e uma grande nebulosa escura na constelação de Cygnus

 

 

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