Guazzelli/Divulgação
Guazzelli/Divulgação

História de opostos

No conto, Eça de Queiroz confronta o calor do amor com a frieza do ambiente

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

20 de fevereiro de 2011 | 00h00

Eça de Queiroz tornou-se um autor clássico, entre outras qualidades, pela forma como desmascarava as aparências da burguesia portuguesa do final do século 19. E isso continuou relevante mesmo depois de sua morte em 1900 (nasceu em 1845), quando começaram a surgir textos inéditos cujas linhas, ainda que inacabadas, traziam críticas à sociedade. É o caso de Um Dia de Chuva, conto pouco conhecido - inclusive pelos amantes de Eça - e que ganha uma nova edição, pela Cosac Naify.

Incompleto, o texto foi inicialmente editado pelo filho do escritor, Eça de Queiróz Filho, em 1929, no volume Cartas Inéditas de Fradique Mendes e Mais Páginas Esquecidas. No Brasil, figura na compilação de sua obra completa editada pela Nova Aguilar - coube à estudiosa Beatriz Berrini o trabalho de consolidação do conto, ou seja, ela restaurou a integridade do manuscrito com exceção de alguns trechos perdidos. Esses momentos são identificados com pontos de interrogação.

Ainda que com rachaduras, o texto é um retrato fiel da literatura praticada pelo escritor português, especialmente no paralelo entre os males da cidade e as excelências da vida próxima à natureza. Um Dia de Chuva conta uma história de paixão envolvendo José Ernesto, um solteirão de Lisboa que resolve fugir do agito da cidade grande e comprar uma quinta (um sítio) no norte de Portugal.

Ao chegar, não consegue conhecer a propriedade graças a dias sucessivos de chuva, que o obrigam a ficar na casa principal, onde ocupa o tempo conversando com o padre da paróquia local (também procurador dos donos do terreno) e o caseiro. Em meio a uma mesa farta de vinho e iguarias locais, José Ernesto ouve histórias sobre as qualidades da propriedade e também da família que habitava o casarão. É então que descobre D. Joana, filha do proprietário, por quem se apaixona mesmo antes de conhecê-la. É a partir dessa aparentemente inocente história de amor que Eça exercita as qualidades de sua escrita notável.

Depois de iniciar a carreira literária como autor romântico, ele logo se deixou fascinar pela realidade e decidiu enfrentar o mundo - assuntos como a estupidez humana, a mesquinhez da pequena burguesia e a grosseria dos clérigos passaram a figurar em livros que se tornaram clássicos, como O Crime do Padre Amaro, O Primo Basílio e Os Maias. "A questão que me parece fundamental nesta narrativa é o contraponto entre o casarão feito nau ilhada por uma chuva torrencial", comenta Eloar Guazzelli, ilustrador e artista plástico convidado para criar os desenhos que acompanham o texto. "Trata-se de uma história de opostos, uma cortina d"água que cobre paredões de pedra centenários."

Guazzelli optou pela simplicidade do traço, acompanhando a singeleza da trama amorosa. Assim, como a chuva é incessante, a água predomina nas palavras e é representada pelo azul, única coloração das ilustrações. "A opção, na verdade, partiu dos designers da editora, mas eu gostei, porque justamente trabalhou no clima psicológico da história e harmoniza com o véu de água que acompanha praticamente toda a narrativa."

Como a trama praticamente não tem ação - afinal, os personagens se empanturram à espera da melhora do tempo -, Guazzelli apegou-se a detalhes psicológicos. "No conto, é muito forte a relação entre um ambiente interno que vai adquirindo vida em oposição a um exterior hostil, onde a chuva transforma a velha casa senhorial em praticamente uma ilha."

Tal opção pelo psicologismo pode ser explicada pelo momento vivido por Eça. Na última década de sua vida, quando se acredita ter escrito o texto, ele foi acusado de se transformar em um reacionário - seus opositores comentavam que ele arrefecia o senso crítico e que queria deixar Paris, onde vivia como diplomata, e voltar a Lisboa, movido por um repentino nacionalismo. Nessa época, também, escreveu histórias que aparentemente demonstram um recuo de seu espírito combativo.

Na verdade, Eça estava profundamente deprimido com a forma como via evoluir a sociedade europeia, tendo até antecipado a 1.ª Guerra Mundial. "O que Eça perdeu - e quem não a perde à medida que envelhece? - foi a profunda raiva que sentia contra seu país, especialmente no que dizia respeito ao seu clericalismo primário", observou a pesquisadora portuguesa Maria Filomena Mónica, autora de uma minuciosa biografia crítica sobre o escritor. "Mas Eça não se converteu: morreu sem extrema-unção e odiou até ao fim a hierarquia católica".

Era, como observou o crítico Antonio Candido, uma espécie de reconciliação do escritor com o velho Portugal e as tradições que ele antes rejeitava. E Um Dia de Chuva aponta para essa apaziguamento do espírito.

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