Ernesto Baldan/Divulgação
Ernesto Baldan/Divulgação

História de Elza, a fera da voz

Documentário centra fogo na importância musical da cantora, deixando em segundo plano os dramas pessoais

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

18 de março de 2011 | 00h00

Quem aprecia música já cansou de ver frustradas as expectativas nas cinebiografias de grandes astros (em forma de ficção realista ou documentário) pela opção de diretores, produtores e roteiristas por "uma grande história de vida", eufemismo para explorar o lado mais dramático e patético desses cantores, deixando a música como acessório alegórico. Elza, de Izabel Jaguaribe e Ernesto Baldan, que estreia hoje em São Paulo, inverte a situação, colocando o dom artístico da cantora em primeiro plano, com leves pinceladas sobre as muitas histórias (e dificuldades) pessoais, como a fome e as inúmeras operações plásticas.

Não se trata de uma biografia de Elza, mas uma tentativa de decifrar o dom "que aprimorou na própria vida", sem escola, como observa Paulinho da Viola. Se no filme sobre Paulinho, Izabel tratou da relação do compositor com o tempo, o objeto de estudo em Elza é a voz dela, com depoimentos consistentes e encontros musicais de quem entende a personagem e tem importância na trajetória dela - como Caetano Veloso, José Miguel Wisnik, Hermano Vianna, João de Aquino, Maria Bethânia, Ricardo Cravo Albin, Paulinho, que também canta com ela.

O timbre, a rouquidão, a divisão rítmica, a atitude rebelde de "não facilitar" (como diz Caetano), de não se deixar moldar para ser apenas mais uma cantora de samba, mas uma roqueira ou uma jazz singer do samba, como ela confirma - esse conjunto de atributos por si só vem carregado de muita história. "A verdade de Elza está no canto", diz Aquino.

"A gente se identificou com as explicações de Caetano e de João de Aquino sobre a capacidade de Elza se fabular, não queríamos nos perder na questão da história da vida privada dela, primeiro porque isso já é muito batido. Não estaríamos trazendo nenhuma novidade. Depois eu nunca sei o que é e o que não é", diz Izabel. "O que nos levou a fazer o filme não era porque ela foi uma pessoa sofrida, ou porque ela foi casada com Garrincha, porque nasceu na favela, teve não sei quantos filhos, deu a volta por cima. Isso acontece com muita gente. No Brasil, infelizmente, existem várias pessoas com dificuldades desse tipo. O que faz de Elza uma pessoa tão singular, tão ímpar, é a potência que ela tem de voz, é a capacidade, a energia e o talento."

Izabel e Ernesto tiveram o cuidado de "preparar o ambiente" para os encontros da cantora com os convidados, "no sentido emocional, visual, estético". "Uma vez isso trabalhado, a gente deixava a coisa fluir o mais leve e improvisado possível." Tanto é que Elza e Bethânia cantam e improvisam sobre Samba da Bênção (Baden Powell/Vinicius de Moraes), uma reverenciando a outra, como se não estivessem diante da câmera parada. Izabel reconhece que a sequência ficou longa, mas foi impossível cortar.

Outra peculiaridade são os duetos e o repertório de canções inéditas na voz de Elza, além de alguns clássicos em gravações, como Salve a Mocidade e O Pato. Quando ela estreou maltrapilha no programa de rádio de Ary Barroso e foi alvo de gozação por parte do público (na era do rádio, lembra Cravo Albin, samba, preto e pobre eram inaceitáveis) subverteu a ordem de cara, arrasando no vocal roufenho. Quando lançou os dois primeiros LPs em 1960, já contratada pela Odeon, por exemplo, ela trouxe a negritude para a bossa nova, como lembra Hermano. São as pequenas revoluções de que fala Bethânia.

Bebop no samba. Albin joga com a hipótese de que ela tenha introduzido o bebop no samba, ao captar o estilo de Louis Armstrong, que ressurgia no filme High Society, cantando o calipso que dava título ao musical. Em entrevista ao Estado, Elza rebate: "Não foi nada disso. Imagina, na favela a gente não tinha nem rádio, muito menos dinheiro para ir ao cinema", lembra a cantora. Ela confirma que aquela famosa "raspada de garganta", imitando sons de instrumentos de metais, veio como aparece no filme: era uma espécie de "gemido" que emitia enquanto carregava pesadas latas d"água na cabeça morro acima.

Curiosamente, no final do filme há uma indicação de que ele foi "baseado em fatos reais". Elza conta que falou com São Jorge aos 5 anos, que teve de parar um show em Niterói por causa de uma invasão de discos voadores. "Tudo na Elza é fantasia, é imaginação. E no fundo não tem a menor importância se aquilo é verdade ou não", diz Ernesto. "O que importa é o jeito com que ela conta, de que maneira ela vê as coisas e se coloca perante o mundo."

ELZA

Direção: Izabel Jaguaribe e Ernesto Baldan. Gênero: Documentário (Brasil/ 2010, 70 minutos). Classificação: Livre.

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