HISTÓRIA DE AMOR E PERDA

Estrela do drama Ferrugem e Osso, a francesa Marion Cotillard reafirma seu reinado nos EUA

KARL ROZEMEYER , THE NEW YORK TIMES , O Estado de S.Paulo

16 de dezembro de 2012 | 02h12

A neve suave que caiu de manhã cedo derreteu, mas um vento gélido continua soprando no centro de Manhattan em volta do hotel onde está Marion Cotillard. São 11 h e a atriz vencedora do Oscar, completamente vestida e maquiada, está enrolada num cobertor do hotel que puxou até o queixo com as pernas escondidas debaixo dele.

Ela é uma das atrizes europeias que Hollywood acolhe atualmente. Desde que recebeu o prêmio de melhor atriz da Academia por sua interpretação de Edith Piaf em La Vie en Rose (2007), a francesa de 37 anos estrelou Inimigos Públicos com Johnny Depp (2009), Nine com Daniel Day-Lewis (2009), A Origem com Leonardo DiCaprio (2010) e O Cavaleiro das Trevas Ressurge com Christian Bale (2012).

"Meu caso é um pouco especial porque nunca procurei fazer carreira nos Estados Unidos. Fui bem-recebida neste país antes mesmo de procurar trabalho aqui." A cadência cuidadosa de sua fala parece resultar da determinação de expressar-se de maneira concisa em inglês.

Embora agora Marion seja uma celebridade obrigatória no tapete vermelho de Hollywood e trabalhe regularmente nos EUA, não se mudou para Los Angeles. Ainda mora na França e continua trabalhando em filmes franceses e projetos para o teatro.

Ferrugem e Osso, o mais recente deles, deve entrar em cartaz no Brasil em 25 de janeiro depois de uma estreia de sucesso no Festival de Cannes e de um triunfo de bilheteria na França. Com a proximidade da temporada dos prêmios, o nome de Marion é sempre incluído nas listas de favoritos ao Oscar.

Coescrito e dirigido pelo autor francês Jacques Audiard, Ferrugem e Osso baseia-se, em grande parte, em dois contos do autor canadense Craig Davidson. Marion faz o papel de Stephanie, uma treinadora de baleias orcas que perde as pernas em um estranho acidente no parque aquático onde trabalha. Depois de cair em um estado de depressão suicida, ela recorre a Ali (Matthias Schoenaerts), um leão de chácara e ex-lutador não profissional que ela conheceu alguns meses antes em uma boate. Embora se mostre muito prestativo, Ali não sente piedade por ela. Irritada inicialmente pela maneira direta como ele a trata, Stephanie aprende a apreciar sua franqueza e a encontrar força nele.

Ela aparece pela primeira vez no filme deitada no chão, coberta de sangue, depois de uma briga em uma boate na Riviera Francesa. A primeira coisa que diz é um palavrão. Trata-se de uma pessoa mordaz, irada. Marion a descreve como "muito violenta no início, lutando contra tudo". Ela exerce esta profissão porque precisa enfrentar o perigo para se sentir viva. "Então acontece o acidente", conta a atriz. "Ela mergulha num abismo e quando isso acontece há duas opções: desistir de viver, desistir de si mesma, mesmo que não morra, ou enfrentar o que é preciso quando não resta mais nada. E o que precisa enfrentar é a si mesma. Portanto, conseguirá transformar a violência que está dentro de si em algo poderoso."

Marion Cotillard começou a se preparar para o papel vendo vídeos de pessoas que sofreram amputações, mas logo desistiu. "Eu me dei conta de que não precisava disto porque o acidente acabara de acontecer (para Stephanie) e nós vemos como ela lida com a nova situação bem no início. Então pensei que a experimentaria ao mesmo tempo que ela", lembra. "Sempre achei que alguém com deficiência física é um herói, porque é insuportável perder uma parte do corpo, e quando se enfrenta dor, raiva e rejeição pelo que lhe aconteceu se percebe que ele é mais forte do que tudo."

Já usando as próteses, Stephanie volta ao aquário e começa a se comunicar com uma das baleias no tanque de vidro. A cena, que, segundo Marion, não teve truques digitais, é uma das suas favoritas. Ela trabalhou cinco dias com orcas antes de iniciar as filmagens e conseguiu estabelecer uma conexão. "Se eu não tivesse dado comida para as baleias, provavelmente não conseguiríamos nos relacionar tão bem", diz, rindo.

Marion vem de uma família do teatro: seu pai é ator e diretor premiado, sua mãe é atriz e professora de teatro. "Nunca vi um filme ou uma peça que, de repente, me fizesse pensar: É isto que eu quero fazer. Sempre quis ser atriz." Ela acredita que o trabalho do ator tem muito a ver com a atitude da criança. "Você finge que é velha, que é uma princesa, que é o bandido, finge que não tem pernas. Você faz as pessoas acreditarem, acreditando em você mesma."

Depois de trabalhar por dez anos em cinema e TV na França, Marion conseguiu um papel de coadjuvante no filme Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas, de Tim Burton (2003). Foi sua primeira atuação em um importante filme de língua inglesa, e, evidentemente, seu grande momento em Hollywood. "Na realidade, não olho para a minha carreira", afirma a atriz com um sorriso largo. "Mas, evidentemente, existem momentos decisivos."

Do seu ponto de vista, ela teve dois, a começar pelo seu papel de coadjuvante no drama de Jean-Pierre Jeunet sobre a Primeira Guerra Mundial Eterno Amor (2004), estrelado por Audrey Tautou. Não surpreende que o outro seja a interpretação que ela deu a uma das cantoras mais memoráveis do século 20 em La Vie en Rose, de Olivier Dahan.

Ela revela que quase não foi chamada para ser Piaf, porque o estúdio hesitava em confiar um papel tão icônico a uma atriz praticamente desconhecida. "Quase todos os patrocinadores desistiram", ela conta. "Havia uma lista de três atrizes que queriam ver no papel. Além disso, problemas de produção quase cancelaram o filme. Nunca podia imaginar que houvesse tanta expectativa em torno do filme. Eu estava ali para trabalhar. A única coisa importante para mim era encontrar a maneira certa."

E ela encontrou. Não só o filme deu a Marion Cotillard o Bafta e o Cesar de melhor atriz - respectivamente o Oscar britânico e o francês - como também ela se tornou a primeira vencedora de um Oscar de interpretação por sua atuação em francês em uma das maiores azarões da Academia de todos os tempos.

Desde então, ela trabalhou com alguns dos mais respeitados realizadores do mundo, como Christopher Nolan em A Origem e O Cavaleiro das Trevas Ressurge, Woody Allen em Meia-noite em Paris (2011) e Michael Mann em Inimigos Públicos. Em novembro, também conseguiu realizar um sonho que alimentava há sete anos, cantando no papel principal do oratório clássico de Arthur Honegger Joana d'Arc na Fogueira (1938), em uma transmissão ao vivo pela internet, de Barcelona.

O próximo filme de Marion, o policial Blood Ties, é coestrelado por Mila Kunis, Clive Owen e Zoe Saldana e dirigido por Guillaume Canet, há muito tempo seu companheiro e pai do seu filho de 1 ano, Marcel. A atriz ainda não sabe qual será o seu próximo trabalho, mas garante: "Hoje, sei o que quero, e também o que não quero". / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

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