Hirst fidelidade a estilo

Em 2008, anuncia o fim das telas de pontos coloridos, mas agora ele volta atrás

CAROL VOGEL , THE NEW YORK TIMES / LONDRES, O Estado de S.Paulo

18 de dezembro de 2011 | 03h09

Enquanto os mercados financeiros rumavam para o desastre em 2008, o artista britânico Damien Hirst esnobou seus negociantes e convenceu a Sotheby's londrina a vender 223 de suas obras de arte, na maioria peças novas. Havia animais mortos - tubarões, zebras, leitões, e até um bezerro - flutuando em gigantescos tanques de vidro cheios de formaldeído; armários cheios de diamantes; e pontas de cigarro. E muitas pinturas: quadros das suas séries de 'spot paintings' (telas cheias de pontos coloridos e espaçados) e 'spin paintings' (quadros pintados sobre uma tela mantida em rotação), pinturas feitas de borboletas presas sob o vidro.

Mais de 21 mil pessoas correram para a Sotheby's para uma prévia da exposição. Nos dois dias de vendas, em setembro, nos momentos iniciais da crise financeira mundial, foram arrecadados US$ 200,7 milhões.

Pouco antes do leilão, Hirst anunciou o fim daquelas telas abstratas cheias de pontos de cores chamativas. Disse também que deixaria de produzir obras de 'spin painting' e quadros de borboletas, além das instalações com animais mortos. Alguns interpretaram isso como uma astuta estratégia de vendas, mas Damien Hirst nega.

"Eu tinha superado aquela fase", explicou ele numa recente entrevista. "Na época do leilão, eu tinha chegado ao ponto em que não poderia mais continuar fazendo aquilo." No entanto, o artista anuncia agora uma mudança de opinião digna do próprio Hirst. Voltou a produzir suas 'spot paintings' e, agora - como ocorre de tempos em tempos - este artista de 46 anos está preparando mais um espetáculo. Desta vez, Hirst convenceu Larry Gagosian, dono de várias galerias, a deixar que ele domine todos os seus 11 espaços com uma retrospectiva de suas 'spot paintings': 2 em Londres; 3 em NY; e também em Paris, Roma, Hong Kong, Atenas, Genebra e Beverly Hills.

A mostra (de 12/1 a 18/2), não consegue evitar a conjuração de um clichê ou outro: moscas volantes, ligue-os-pontos, para citar apenas os mais óbvios. E, assim como tantas das coisas feitas por Hirst, a exibição de 'spot paintings' deve atrair uma tempestade de críticas.

Richard Dorment, crítico de arte do Daily Telegraph, em Londres, descreveu as 'spot paintings' como "incrivelmente entediantes" e, ao ser indagado sobre as exposições nas galerias Gagosian, respondeu: "O acúmulo dessas obras num mesmo local, como o Turbine Hall da galeria Tate, poderia produzir algum impacto visual, mas não vejo propósito em encher todas as galerias Gagosian do mundo. A que propósito isso poderá servir?" Hirst já ouviu todas as queixas antes.

"Certa vez, alguém me disse: 'Por que faz essas pinturas idiotas? São uma estupidez, um insulto à pintura'." Mas, para Hirst e Gagosian, elas são assunto sério. "É como uma grande exposição em múltiplas localidades", informou Gagosian em entrevista por telefone.

A mostra vai incluir cerca de 200 obras, abrangendo 20 anos de produção, vindas de coleções espalhadas em 20 países. Empréstimos estão chegando de museus e colecionadores de todo o mundo.

Menos de um terço das obras expostas estará à venda. Embora representantes da galeria digam que ainda é cedo para falar em preços, obras comparáveis negociadas em leilões atingiram preços que vão de US$ 100 mil a mais de US$ 1,8 milhão, dependendo de sua data, tamanho, projeto e condição. A mostra será seguida por uma retrospectiva completa na Tate Modern, que vai estrear no dia 4 de abril.

Para alguns, a ideia de contemplar galerias contendo apenas telas cheias de pontos pode soar de uma monotonia insuportável. Mas não para o artista, como seria de se supor. "Trata-se de pinturas bastante difíceis de serem olhadas", garantiu ele.

"Superficialmente, são pinturas alegres, mas há nelas uma inquietação subjacente. Perdemos a referência, pois é difícil manter a concentração nelas. Devemos manter o foco no padrão, nos pontos individuais ou no quadro como um todo? Depois que começamos a olhar para elas, ficamos perdidos." / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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