Hirsch retoma mote de som e fúria

Com proposta mais intimista, Sutil Cia. faz novo espetáculo sobre rock

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

04 Abril 2011 | 00h00

CURITIBA

É em tom nostálgico que Felipe Hirsch aparece neste Festival de Curitiba. Com Trilhas Sonoras de Amor Perdidas, uma das estreias da mostra oficial durante o fim de semana, o diretor não revisitou apenas o traço memorialístico que costuma marcar as criações da Sutil Companhia de Teatro. Foi literalmente buscar o tempo perdido e retomou o mote que marcava uma antiga e marcante obra do grupo, A Vida É Cheia de Som e Fúria.

Lá se vão 11 anos desde que ele lançou a montagem de pegada pop. A história do sujeito que fazia listas e listas de músicas para falar do rompimento com a namorada arrebatou as plateias. E projetou a companhia nacionalmente.

Nada voltaria a ser igual para a Sutil depois de Som e Fúria. Baseada no livro de Nick Hornby, Alta Fidelidade, ela vinha embalada pelo som dos Smiths e Joy Division. A intenção inicial era algo megalomaníaca, fazer uma trilogia em cima do rock. "Mas a vida nos levou para tantos lugares diferentes, que isso acabou ficando para trás", pontua o diretor.

Mesmo sem acreditar que a tal ideia de uma continuação viesse a vingar algum dia, Felipe Hirsch passou os anos recolhendo material. Não apenas músicas, mas cartas - dele e dos amigos - que ajudaram a compor a dramaturgia. Escrito com colaborações, mas alinhavado essencialmente pelo diretor, o texto tomou de empréstimo fragmentos e citações, como se tivesse um quê de "colagem dadaísta."

O enredo, aliás, tem essa noção de colagem como norte. Fala de um tempo em que se gravavam fitas cassetes, seleções de canções diletas com as quais se presenteava alguém.

Na peça, o personagem de Guilherme Weber tem a missão de resgatar essas fitas do limbo. O ator, que encarnava o protagonista de Som e Fúria, volta ao posto. Ainda que mereça agora outros matizes. "Não é uma continuação da história, mas do projeto", lembra Hirsch.

Em Trilhas Sonoras de Amor Perdidas, ele não é mais um DJ. Ressurge como jornalista, dono de um programa de rádio e de uma coluna no jornal. A crise de idade que aparecia antes também desapareceu. Abre espaço para uma personalidade mais frágil. Talvez mais madura. Assim como mais maduras seriam as canções que aparecem desta vez, acredita Hirsch.

Tudo aquilo que antes pendia para o soul, aqui aparece num território punk. Algo que lembre as garage bands londrinas, com rasgos de The Fugs e Pixies.

Existe também uma diferença essencial no pacote que é entregue ao espectador. Sem a aura épica que revestia Som e Fúria, a atual encenação abre mão de maneirismos. A cenografia de Daniela Thomas lembra uma simples e empilhada sala de estar.

O foco não recai sobre o que se vê em cena, mas sobre o que se ouve. Neste apego à palavra, Hirsch acredita ter feito uma peça intimista, de câmara. "É como se Strindberg quisesse falar de punk rock", diz ele sobre a montagem, que deve chegar em julho a São Paulo.

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