Hiperdemocracia

NOVA YORK

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

13 de dezembro de 2010 | 00h00

O professor, jornalista do New York Times e Prêmio Nobel de Economia Paul Krugman resolveu fazer uma faxina no seu blog, que é reproduzido por este jornal. Na quarta-feira, um post com o título Housekeeping anunciava:

"1. Nada de obscenidades. Aqui é o New York Times. Se você xingar, estará desperdiçando seu tempo e o meu. E tem havido muito desperdício ultimamente.

2. Nada de comentários intermináveis. (...) A seção de comentários não é lugar para discursos. Arrume o seu próprio blog!

3. Nova regra: ainda não fiz isto mas, no futuro, vou aplicar o mesmo padrão de verificação de fatos do jornal - declarações falsas não serão publicadas. Opinião, pode; mas se você alegar que eu fui a favor de matar bebês numa coluna ou no blog em que nada disso foi dito, o comentário será apagado."

Uau. Em que século vive Paul Krugman? Será que ele não compreende a marcha irreversível da II - a Interatividade Ilimitada? A II é como uma era geológica, não dá para voltar atrás e querer viajar por terra entre a Austrália e o Brasil, como se fazia antes do Cretáceo.

O comediante Steve Martin aprendeu sua lição e poderia dar uns conselhos ao economista.

Martin é um polímata. Além de ser conhecido por seu trabalho como humorista, ele dirigiu filmes, ganhou um Grammy com uma gravação de banjo e colabora com a New Yorker. Falta lembrar que ele escreveu peças, publica romances e coleciona arte moderna. Steve Martin compra pinturas de Edward Hopper e desenhos de Pablo Picasso. De tanto frequentar galerias e museus, ele se inspirou no mundo da arte para escrever seu mais recente livro, An Object of Beauty: A Novel (Um Objeto de Arte: Um Romance).

Pois um veterano do show biz como Martin veio a cometer um pecado capital em público. Imaginem só, Steve Martin esqueceu de ser engraçado durante mais de uma hora!

Martin foi convidado para dar uma entrevista pública, no dia 29 de novembro, no auditório do 92nd Y, uma instituição cultural judaica onde os ingressos para eventos com celebridades, de Laurie Anderson a Patti Smith, passando por Benjamin Netanyahu, costumam esgotar-se com antecedência.

Para entrevistá-lo, Martin escolheu a repórter do New York Times Deborah Solomon. A jornalista não trata muito bem os entrevistados na sua seção regular na revista do New York Times ao domingos. Mas é amiga de Martin, versada em arte moderna e concluiu (com sua verve polêmica?) que a entrevista deveria ser sobre o tema do novo romance. O leitor já sente a aproximação do tsunami?

No meio da entrevista, um funcionário da augusta instituição entrou no palco e passou um bilhete zangado para a entrevistadora: "Pergunte sobre a carreira dele." O público que acompanhava a entrevista online estava entediado com aquele papo sobre arte. Deborah tentou aplacar a ira cibernética e acolheu perguntas do público presente. A noite acabou mais cedo e, no dia seguinte, o 92nd Y devolveu o dinheiro dos ingressos aos presentes - cada uma das 900 pessoas pagou US$ 50 -, afirmando que a noite não estava no "nível de excelência" habitual da série.

Steve Martin duvidou do tal nível de excelência, uma vez "que já me convidaram para falar lá outra vez". Touché.

Parece que Martin só vale US$ 50 quando conta alguma anedota sobre Meryl Streep ou Michael Caine. Por isso, votaram na sua expulsão da ilha, não a de Manhattan, mas a terra da Interatividade Ilimitada.

Na ilha de Manhattan, não é preciso muito para tocar fogo nos ânimos. Facções se formaram, pró e contra todos os envolvidos. Martin mandou ver no Twitter: "O 92nd Y determinou que o curso das entrevistas seja ditado em tempo real pelos emails do público. Cuidado, artistas."

Outro comentarista local, que compra brigas com a frequência com que eu compro tulipas aqui na esquina, identificou na Interatividade Ilimitada uma revolução tão libertadora que saiu pedindo reembolsos a torto e a direito. Lee Siegel pediu a Barack Obama para devolver o valor de 6 canecas compradas em 2008 com a inscrição Yes, We Can (Sim, Podemos).

Pediu à editora para reembolsar o valor pago pelo livro Freedom (Liberdade), de Jonathan Franzen. Um crítico havia dito que Franzen criou "um retrato indelével da vida dos americanos". "Eu não vivo assim", retrucou o militante interativo.

Siegel levou o filho para assistir à ópera La Bohème e pediu o dinheiro do ingresso de volta porque, no terceiro ato, a Mimi não parava de tossir e, a essa altura, ele concluiu, o problema já devia ter sido eliminado com um nebulizador.

Quem precisa de defesa do consumidor se temos o poder de corrigir qualquer incômodo? O que você está esperando para exigir que, na próxima encenação de Romeu e Julieta, os pombinhos mudem o rumo inconvenientemente trágico da história e passem o fim de semana na ilha de Caras? Está com nojo das caras pestilentas das Demoiselles d"Avignon? Fotoshop nelas!

E você, Paul Krugman, que, ao contrário de Steve Martin, não contracenou com a Beyoncé? Você tem encontro marcado com o público do 92nd Y em março. Como vão suas aulas de sapateado?

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