Hip Hop na raça

Aos que ainda enxergam os rappers americanos como alienados, ouça o que Questlove tem a dizer

Roberto Nascimento, O Estado de S.Paulo

07 de maio de 2011 | 00h00

As levadas do baterista Ahmir "Questlove" Thompson representam com clareza o elo entre o soul e o hip hop. Em seu trabalho com o ilustre grupo The Roots, elas recriam à moda antiga os ritmos modernos, tocando ao vivo o que seria normalmente recortado de discos antigos. Esta relação entre o novo e o clássico está diretamente ligada ao fascínio do músico pela a história do negro, sua visão musical e, consequentemente, seu trabalho na campanha presidencial de Obama. Questlove, que vai acompanhar John Legend no festival Urban Music, no próximo dia 29, no Anhembi, em São Paulo, falou ao Estado sobre hip hop, Obama e de seu novo trabalho no programa de Jimmy Fallon.

Você é um dos caras mais engajados do hip hop. O que aprendeu com a campanha de Obama?

A primeira coisa que percebi foi "a América realmente não tem noção de o que é a política". A maioria das pessoas acha que é uma hierarquia, um reinado em que rei Obama mexe sua varinha de condão e de repente há 40 alqueires e uma mula para cada um, com uma galinha em cada panela. Votaram nele por causa das promessas. Ele disse o que todos queriam ouvir, e de forma idealística ele tem mantido essas promessas. Mas poucos percebem quantas pessoas querem ver ele errar. Veja só o que passamos nos últimos seis dias: semana passada, Donald Trump estava atrás da certidão de nascimento do Obama, o que na real é uma versão atualizada de um capataz pedindo que um escravo libertado mostre sua carta de alforria, para comprovar que não fugiu. Depois disso, fomos ao outro oposto. De repente, sua popularidade sobe 15% com a morte de Osama. A mesma rapidez com que eles o exaltam é a rapidez com que vão jogá-lo na lama de novo.

Você tem teorias sobre como o hip hop não teria florescido não fosse a desigualdade de renda na era Reagan. Como vê os efeitos da política e da economia no hip hop de hoje?

Uma das infelicidades do governo Bush foi que ele nos deixou anestesiados perante o que realmente está acontecendo. Na era dos direitos civis, a música tinha uma função de cura. Todos marchávamos e rezávamos juntos. Hoje em dia há um vão espiritual. Não acho que seja possível haver música com alma em um contexto tão capitalista. O denominador comum do rap dessa última década é a ideia capitalista do vencedor. Nos anos 60, o discurso era "Deus, sou seu humilde servo, me ajude a superar estas dificuldades". Hoje é "Olha aqui, seus otários, eu consegui". O mantra de Jay-Z é esse. Não há mais o elemento de gospel batista que permeava a música negra antigamente.

Vencer tinha muito mais a ver do que ganhar dinheiro?

Naquele tempo, conseguir sobreviver ou não ser linchado por uma gangue do Ku Klux Klan era vencer. É difícil para jovens se relacionarem com uma música feita com um esforço daqueles se eles não sabem o que isso significa.

How I Got Over, o novo disco, tem esta qualidade espiritual.

O que se passou com Os Roots durante a produção?

Muitos de nós estávamos beirando os 40, o que nos coloca em um nível de pré-crise de meia-idade. Principalmente porque a minha geração foi a primeira depois dos direitos civis, a geração hip hop, a primeira a sentir o que é crescer na América sem racismo institucionalizado, ou seja, racismo aprovado pela lei. Como resultado, o hip hop virou o primeiro movimento jovem a ser levado a sério pelos adultos. Mas nenhum de nós pensava em envelhecer. A maioria dos rappers se aposenta antes dos 30, então na história do hip hop não há precedentes de como ser um grupo de hip hop após os 40. How I Got Over e o disco Wake Up,feito com o John Legend, tem essa qualidade espiritual porque estamos maduros. Também representa uma transição: como recolher os cacos da era Bush e apostar na era Obama.

Vocês estão sob holofotes televisivos agora. Acompanham o prestigiado talk show de Jimmy Fallon. Por que fizeram essa escolha?

Tínhamos passado 18 anos na estrada e sabíamos que seria estranho para os nossos fãs. Tenho de admitir que eu pensei que seria uma gig de aposentadoria, 30 minutos de música por semana e pronto. O que não sabíamos é que isso nos tornaria mais prolíficos do que nós imaginávamos. Hoje em dia, somos mais famosos do que nunca. Por exemplo, a Joanna Newsom cantou no meu disco porque o namorado dela trabalha no Saturday Night Live, que é no andar de cima do nosso. Não tenho que falar com o agente ou o advogado. Chego para um artista e digo: "Sou seu fã, quer tocar no meu disco?". E pronto.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.