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Hip Hop de tamancas

Nas palavras de Antonio Blair, do duo House of LaDosha, qual o problema de o rap sair do armário?

Roberto Nascimento, O Estado de S.Paulo

31 de março de 2012 | 03h11

É curioso que um imaginário como o do hip hop, tão povoado de lendas do submundo e vaidade masculina, nunca tenha tido o seu Madame Satã. Afinal, uma inversão inesperada, o homo que vence um jogo hétero, não é novidade na indústria musical americana desde os tempos de Sylvester. Mas, de alguma forma, a caretice e a misoginia predominaram até recentemente, quando o rap mainstream entrou em uma espécie de vale-tudo criativo.

Hoje, há espaço tanto para óperas megalomaníacas como a de Kanye West, a mistura de terror e pop açucarado de Nicki Minaj, quanto para as confissões de Drake. O prolífico e incensado Lil B lança um disco chamado I'm Gay (Happy) (embora não seja) para provocar. Eis que em Nova York e outras cidades centrais ao rap americano começam a pipocar nomes e grupos de travestis que rimam, e rimam bem. É o caso do rapper Mykki Blanco (entrevistado pelo site Pitchfork na semana passada), Zebra Katz e a dupla House of LaDosha, ambos provedores de letras sagazes e atitudes contundentes. Antonio Blair, metade do House of LaDosha, que tem todos os singles postados no Myspace, falou ao Estado por e-mail, sobre sexo, rimas e seu sonho de ser designer.

Ser gay e fazer hip hop em algum ponto pareceu como algo que não funcionaria?

Sim. Quando perguntaram se a gente queria fazer shows, a minha primeira reação foi perguntar "por quê?". Achei que as pessoas não entenderiam. Mas na medida em que a confiança cresce, você escuta o aplauso e os gritos do público e a suas dúvidas se derretem: você consegue simplesmente fazer o show. Aí câmera, luzes, ação. A gente vive para isso.

Nos vídeos, me parece que a atitude ao mesmo tempo agressiva e afetada de vocês casa muito bem com a estética do hip hop. Por que acha que somente agora rappers gays estão chamando atenção?

Sexo vende, e se você não tem atitude para segurar a onda e as rimas, as pessoas não botam fé. Eu falo umas coisas bem picantes, mas de uma forma dominadora. Não uso voz de criança. Não estou dizendo 'venha pra cama comigo'. Sou incisivo e por isso escrevo em letras maiúsculas (o e-mail foi respondido de tal forma). Por isso sempre gravitei em direção de rappers femininas. Por causa da inversão no script quando se trata da dinâmica de poder em uma situação sexual. Eu não sei quanto o hip hop está mais aberto. Mas sei que as bichas estão finalmente percebendo que elas podem extravasar, e se a atitude for legítima, se tiverem a moral de botar a banca, então o que pode ser dito a elas além de 'saiam daqui'?

Como começou a rimar, e quais foram suas influências?

Eu me mudei para Nova York para ser designer de moda. Eu rimo porque sei rimar, mas a minha verdadeira meta é ser designer. Por isso a moda é uma parte tão importante do que a gente faz. Porque a gente vive e come moda. O rap aconteceu porque recebemos propostas e não paramos desde então. Sempre tive um vocabulário colorido. Escrevia poesia quando era moleque...

Será que é mais aberto hoje em dia? Há rappers como o Lil B que se declaram pós-preconceito. Mas ele não é mainstream...

Como eu disse, as coisas são mais abertas, mas tudo depende do artista que quer chegar lá e insiste em ser reconhecido. Muitos dos meus rappers preferidos são gays. Mas detesto o fato de que ser gay é colocado na frente de tudo o que a gente faz. Rapper gay, ator gay, ativista gay, empresário gay. A partir deste ponto, a coisa deixa de ficar interessante em uma área que é predominantemente heterossexual, como o hip hop. Eu sou gay e faço rap, mas não faço rap gay. Entende?

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