Hilda, uma das melhores poetisas dos anos 50

Alcir Pécora, organizador da reedição da obra de Hilda Hilst pela editora Globo e professor de Teoria Literária da Unicamp - ?Neste momento, o que pesa é a perda de uma amiga. Quanto à obra, é uma das mais significativas produzidas entre meados dos anos 70 até os 90 no Brasil. Nos vários gêneros que escreveu, ela alcançou um grau de excelência raro, uma produção imensa, que ainda está para ser lida, uma vez que sua publicações foram editadas de forma praticamente artesanal, com tiragens pequenas. Só depois que a Globo começou a editar sua obra é que ela passou a ser lida e a ser divulgada. Minha expectativa é que todo esse trabalho possa ser conhecido.? Antonio Medina, professor e crítico literário - ?Primeiro, a Hilda Hilst foi uma campeã. Venceu em um gênero dominado por homens, a poesia. Uma luta que não foi fácil, encontrou dificuldades em levar seus livros ao público. Foi uma grande poetisa, uma das melhores que começaram nos anos 50. Tudo o que produziu o fez com grande liberdade. Na linha temática, o erotismo foi uma novidade. Não que outras mulheres não tenham trabalho sobre esse tema, mas ninguém o fez com tamanha força como ela. Praticou com agilidade o uso do verso, que fica no trânsito entre o simbolismo e o tom oral simples. Uma mulher muito amada, com muitos fãs e, apesar de seu esforço, nunca conseguiu um auditório para levar seu trabalho.? Mário Chamie, poeta - ?Hilda Hilst foi uma escritora liberta e corajosa, que fez da solidão a fonte fecunda de sua incomum obra literária. Deixa-nos uma prosa pulsante ao lado de sua bela poesia visceral.?Marçal Aquino, escritor - ?Hilda é um caso raro na literatura brasileira. Autora de um trabalho solitário e pouco reconhecido, apesar da sua legião de fãs. O País perde uma grande escritora, que ele não conheceu direito. Seus livros estão aí para mostrar sua grande força.? Fernando Bonassi, escritor - ?Uma das funções dos escritores está em alargar os horizontes morais de onde vive. Hilda fez isso muito bem e, quanto mais velha, mais louca ficava, para mim um verdadeiro exemplo. O Brasil é um país careta, com uma literatura careta. Ela produziu uma boa literatura e sabia desafiar a moral. Perder uma autora como ela é muito ruim, porque vivemos um momento morno da literatura.? Ignácio de Loyola Brandão, escritor e cronista do Estado - ?A Hilda, uma das maiores escritoras brasileiras ? e falo escritor, do porte de uma Clarice Lispector sem desmerecer Guimarães Rosa ? foi uma mulher muito injustiçada. Dona de um estilo único, ela nunca teve no grande público a repercussão que merecia. Uma escritora de primeira linha, teve uma parte da crítica sempre favorável a ela, mas a vida inteira sofreu com o não reconhecimento dos leitores. Um dos sonhos dela era ser muito lida, de vender muito, de entrar numa lista dos mais vendidos, como ela dizia à Lygia Fagundes Telles. Morreu na solidão e morreu na incompreensão. Por sorte, nos últimos anos, a editora Globo vem reeditando a sua obra. E, por sorte, na Unicamp ela está recebendo um abrigo amigo.?João Adolfo Hansen, professor da Faculdade de Letras da USP - ?Muito triste e sobre a morte não há o que dizer. É preciso lembrar que sua literatura inconformada e a própria Hilda são anacrônicas ao nosso conformismo.? Álvaro Alves de Faria, escritor - ?Morre com Hilda Hilst o que a literatura brasileira tinha de mais nobre. Morre com ela a dignidade tirada da vida. Aquela sem artifícios, envolvida na existência, no encantamento e também no desencanto. Morre com Hilda a elaboração delicada do texto, a elegância de um texto muito difícil de encontrar no mundo. Hilda era uma mulher mágica, uma escritora mágica e muito além de seu tempo. Espero que o Brasil pague a ela o que deve. Estive com Hilda recentemente e, enquanto tomávamos um copinho de vinho do Porto, ela disse que sua única preocupação sobre a vida era o que seria feito com seus 70 cães, que viviam soltos por sua casa em Campinas.?

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