Hilda Hilst devora clássicos

Hilda Hilst não escreve mais - prefere devorar livros, especialmente os clássicos, que decoram todas as paredes de seu escritório na Casa do Sol, sítio próximo de Campinas onde vive desde 1966. "Gosto de utilizar meu tempo em meio às obras-primas", comenta a escritora, ainda inflexível em não abandonar o café e o cigarro. Além da visita de conhecidos (como Alcir Pécora) e dos cuidados que recebe dos amigos que também moram lá (como o escritor Mora Fuentes), está cercada de cachorros, muito cachorros (agora são cerca de 60, mas já chegou a ter mais de cem), com os quais gosta de brincar.Mesmo não utilizando mais sua Olivetti, gosta de recordar o ato prazeroso da escrita. Conta que não se desfazia de originais. "Se não servissem em um determinado momento, poderiam ser úteis em outra obra", justifica. Lembra também do tempo que consumia em cada produção. Rútilo Nada, por exemplo, precisou de seis anos até ser terminado, um período em que fez muitos cortes até atingir o texto que considerava perfeito.A obsessão pela leitura, o contato com os amigos, o cuidado com os cachorros - a rotina de Hilda Hilst não apresenta mais uma de suas antigas paixões, assistir às telenovelas. O motivo é a precária criatividade dos enredos atuais. "Não sou mais surpreendida por nenhuma história", reclama.Fervorosa em sua religião, a escritora crê na imortalidade. O fascínio aumentou quando leu o livro Transcomunicação Instrumental, em que a autora, Sonia Rinaldi, garante ter recebido mensagens de seres de outro planeta. "Sei que podemos nos comunicar com qualquer alma", acredita ela, cuja emoção mais forte foi rever a figura de Apolônio, seu pai, que lhe apareceu na sala de estar da Casa do Sol. Inicialmente, Hilda não o reconheceu até que notou a semelhança ao admirar uma fotografia do pai quando jovem. "Foi um sensação muito forte, mas que me confortou como uma reconciliação."

Agencia Estado,

19 de outubro de 2001 | 17h49

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