H.G. Wells discute dilemas éticos em 'A Ilha do Dr. Moreau'

A ILHA DO DR. MOREAU Autor: H.G. Wells Tradução: Braulio Tavares Editora: Alfaguara Brasil (176 págs., R$ 29,90)

VINICIUS JATOBÁ É CRÍTICO LITERÁRIO, O Estado de S.Paulo

18 de fevereiro de 2012 | 03h07

VINICIUS JATOBÁ

Poucos escritores dissecaram tão engenhosamente os fantasmas da razão: A Máquina do Tempo, O Homem Invisível, A Guerra dos Mundos, todos já editados pela Alfaguara, são tratados morais disfarçados de romances de aventura. H.G. Wells sempre foi além: utilizando fartamente técnicas narrativas de folhetim e sem jamais escapar dos enlevos da boa história, e usando toda fascinação de seu tempo pela tecnologia, pela máquina, Wells encenou violentos dilemas morais e éticos que ultrapassam o mero comentário social para abarcarem as contradições mais essenciais de suas personagens.

A Ilha do Dr. Moreau, agora editado no País, é um livro ímpar. Tendo um certo Prendrick como narrador, Wells desfia uma trama notável: à deriva em alto-mar, o protagonista é resgatado por um navio que seguia para a Inglaterra, e acaba fazendo escala numa ilha misteriosa. É o início de seu inferno: tomando conhecimento dos experimentos de vivissecção levados a cabo pelo tal Moreau do título - nos quais ele humaniza animais -, Prendick parece condenado a permanecer ali.

Como em outros livros, Wells cria um sistema social na ilha, em que homens bestas obedecem a Moreau cegamente e as regras de civilidade são substituídas por um sistema quase religioso de submissão.

É extraordinário como Wells consegue esticar o livro para além da solução do conflito entre Moreau e Prendrick: quando volta à Inglaterra, o narrador segue vendo por trás de cada pessoa uma força bestial destrutiva, que o faz buscar paz no autoisolamento.

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