Hesse retomou, em nova chave, tradição do romantismo alemão

Ideia de construção da liberdade permeia a sua literatura

Luis S. Krausz,

10 de agosto de 2012 | 20h00

A literatura de Hermann Hesse (1877 -1962) é, antes de mais nada, expressão do anseio por liberdade espiritual e por um sentido para a existência, numa era de desencantamento e de cinismo. Nascido de uma família protestante, mas que passara anos na Índia, onde seu pai e o avô materno foram missionários, Hesse foi, desde a adolescência, um crítico das instituições sociais concebidas para moldar os indivíduos e adaptá-los a um quadro inflexível, à custa do esmagamento de suas individualidades. E percebeu esta realidade como um dos piores males da Alemanha de seu tempo, fossilizada por um sistema político e ideológico opressivo, assolada pelo nacionalismo e alheia "ao passado germânico e a toda a cultura cristã da Idade Média, de uma maneira incompreensível".

Viveu uma época de perda de fé em instituições como a Igreja ou a Justiça que, desvirtuadas em sua essência, se tornaram formas ocas de uma ritualística vazia. Revoltou-se, sobretudo, contra o princípio pietista, fundamental na educação que recebeu, que pressupunha ser o homem naturalmente mau, o que levaria à necessidade de destruição de sua vontade original antes que pudesse alcançar a salvação.

Hesse frequentou, na adolescência, um seminário teológico protestante, mas o abandonou ao fim de um ano. Passou, então, a estudar num colégio laico – que também abandonou para tornar-se aprendiz de mecânico. Chegou a pensar em emigrar para o Brasil, mas acabou, em vez, por empregar-se numa livraria e antiquário, na Basileia.

Para ele, a educação verdadeira deveria ensinar o homem a ouvir sua voz interior – e não reduzi-lo à condição de um membro de manada. Buscou na simplicidade e na austeridade os antídotos para o que percebeu como a condição de alienação de seu tempo – e seus romances expressam a luta que o homem deve empreender contra as convenções para poder chegar a si mesmo.

Seu caminho, como homem e como escritor, recupera realidades espirituais obliteradas ou esquecidas e a Índia, país que visitou pela primeira vez em 1911, surge aí como lar e fonte da juventude da alma, e como morada de valores esquecidos pelo século 20.

Pouco depois de seu primeiro casamento, em 1904, Hesse abandonou para sempre a vida das cidades, buscando distanciar-se de uma civilização assentada sobre bases falsas. Nunca acreditou nas tentativas de remitologização da vida quotidiana propostas pelo nacionalismo alemão e buscou refúgio na Suíça.

Enquanto a trepidante "nova objetividade" dominava o cenário literário de uma Alemanha combalida pela guerra, Hesse cultuou uma literatura voltada para as profundezas da alma, para a memória e para a opacidade. A purificação do ser humano por meio da introspecção – um dos elementos-chave do cristianismo medieval – é por ele retomada como único caminho para o despertar espiritual. Foi um homem profundamente religioso. "Nunca vivi sem a religião," disse, segundo seu biógrafo G. Hafner, "e não seria capaz de viver um dia sequer sem religião. No entanto, passei minha vida toda desligado das instituições religiosas." Via a si mesmo como um místico cristão, para quem eram também muito importantes os valores do hinduísmo e do budismo.

Hesse retomou, em nova chave, a tradição do romantismo alemão, voltada à experiência livre do sublime e à construção da liberdade. Como tal, tornou-se guia para várias gerações de desencantados com as idolatrias da sociedade industrial e pós-industrial e foi precursor de aspectos da contracultura da década de 1960: rebelde em busca de si mesmo, cético quanto às falsas promessas do progresso, peregrino em busca de autorrealização, defendeu o humanismo eclipsado pelas tiranias e criou uma mitologia e uma soteriologia particulares.

Do seu silêncio rural e primitivo, acreditava estar escrevendo para uma pequena minoria. Mas ao transcender conteúdos locais e nacionais, criou uma obra devotada à construção de uma nova cultura humana – e como tal, atualizou o ideal da Bildung (ilustração), que propõe a universalidade do espírito e o sentido cósmico do ser humano.

LUIS S. KRAUSZ É PROFESSOR DE LITERATURA JUDAICA E HEBRAICA DA USP E AUTOR DE PASSAGENS: LITERATURA JUDAICO ALEMÃ ENTRE GUETO E METRÓPOLE (EDUSP/FAPESP)

 
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