Herzog e o abismo da morte

Impactante, o filme de Werner Herzog é atração de hoje do festival

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

24 de março de 2012 | 03h08

Em outubro de 2001, em Conroe, no Texas, uma mãe, seu filho e o amigo do garoto foram brutalmente assassinados porque o assassino, ou os assassinos, queriam o vistoso carro vermelho estacionado na garagem da casa. Acionada, a polícia iniciou a caçada que terminou uma semana mais tarde, no estacionamento de um shopping center. Houve tiroteio, dois homens foram presos. Um foi condenado à prisão perpétua e o outro, Michael Perry, à morte. O diretor alemão Werner Herzog obteve autorização especial para filmar Perry no corredor da morte. Em Ao Abismo, ele entrevista o criminoso, oficiais de justiça, testemunhas. O resultado é impactante.

Outro Perry - Smith - foi o assassino, também condenado à morte, de À Sangue Frio, não ficção de Truman Capote que virou (grande) filme de Richard Brooks. Ao Abismo é a atração de hoje do Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade. Só como curiosidade, anos atrás, Herzog fez outro documentário intitulado Sinos do Abismo, sobre um curandeiro nos confins gelados da Sibéria. E depois de Ao Abismo, Into the Abyss, voltou ao corredor da morte para seu documentário seguinte, exibido no Festival de Berlim deste ano. Death Row acompanha não um, mas quatro condenados.

No Dicionário de Cinema, Jean Tulard define Herzog como o mais romântico cineasta alemão de sua geração - aquela que, nos anos 1960, incluía Volker Schlondorff, Alexander Kluge e, um pouco mais tarde, já no limiar dos anos 70, Rainer Werner Fassbinder. No documentário ou na ficção, Herzog sempre foi atraído pelos marginais e pelos solitários. Entre seus clássicos contam-se Aguirre, a Cólera dos Deuses, O Enigma de Kaspar Hauser e Fitzcarraldo (ficções) e também Terra do Silêncio e da Escuridão e o recente Caverna dos Sonhos Esquecidos (documentários).

Na Caverna, somando reminiscências de Platão, Herzog incorporou o 3D à investigação sobre um espaço interdito aos olhos da maioria - a caverna de Chauvet, no sul da França, fechada porque abriga inscrições pré-históricas, as mais antigas de que se têm notícia. Ao Abismo propõe outra viagem. O que é exatamente o abismo do título? O da mente humana? O cinema contou muitas histórias de condenados à morte, quase sempre (sempre?) para investir contra o que não deixa de ser uma instituição bárbara, inspirada no velho código de Hamurabi. Olho por olho. Matou, tem de morrer. O documentário de Herzog discute/investiga os aspectos legais do cumprimento de uma sentença de morte, mas o autor está mais interessado em outra coisa.

Michael Perry é, para ele, um personagem dostoievskiano. Crime - e castigo. O que leva uma pessoa a cometer o gesto extremo - matar? O ato pode ser muito bem gratuito. Perry e seu parceiro poderiam ter roubado, simplesmente, mas mataram. Herzog não aparece no documentário, mas sua voz é onipresente. Ele pergunta tudo, a todos. Mas o faz com - digamos - delicadeza. Tenta não ser invasivo. Não intimida Perry, não impõe uma situação de força, não o condena nem faz sentir culpado. Mas é incisivo. Não deixa de perguntar nada que possa servir para o retrato que pretende traçar. Não é um belo retrato. Às vezes, é até bastante feio e sombrio.

Por que? Em Death Row, Corredor da Morte, Herzog continua perguntando. E suas perguntas são cada vez mais inesperadas e surpreendentes. Ao mesmo tempo que busca expor os motivos dos assassinos, ele pergunta sobre o signo (no zodíaco), sobre sonhos e desejos, sobre lembranças alegres, sobre o prato preferido. Tudo isso permite ao espectador se situar (colocar em cena). Pois o que Herzog não quer é que nós, o público, percamos a noção de que esses assassinos são (dolorosamente) humanos.

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