Herzog e a psique coletiva da américa

Peixes sonham? É com esta interrogação que Werner Herzog termina sua versão de Vício Frenético. O thriller ainda está em exibição na cidade. Coincidentemente, está sendo lançado em DVD. Chama-se Bad Lieutenant no original. O filme retoma o título e o personagem de Harvey Keitel - agora interpretado por Nicolas Cage - da obra homônima de Abel Ferrara nos anos 1990. Não se trata propriamente de um remake. Durante o recente Festival de Berlim, Herzog, presidente do júri, foi arrogante com jornalistas que lhe cobravam haver se vendido a Hollywood. Como um diretor que aceitar refilmar o trabalho de colegas podia avaliar o trabalho dos outros? Quem é Ferrara, provocou Herzog?

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

28 de abril de 2010 | 00h00

Seus filmes não provocam mais o impacto de suas grandes obras nos anos 1970 e 80, como Aguirre, a Cólera dos Deuses e Fitzcarraldo, com Klaus Kinski, ou então o sublime O Enigma de Kaspar Hauser, talvez a sua obra-prima. Mas Herzog certamente não se vendeu ao cinemão. E ele extrai outra interpretação forte de Cage, que, por um momento, abandona seu personagem recente de herói de ação. Policial ou criminoso, pergunta a prestigiada Cahiers du Cinéma na capa de março, que ostenta a foto de Nicolas Cage, o bad lieutenant. Na nova versão, que se abre durante o furacão Katrina, em New Orleans, Cage faz o agente que, impulsivamente, salta na água para salvar o prisioneiro que está morrendo afogado. Ele consegue, mas machuca as costas. Passa a tomar medicamentos contra a dor. Fica viciado e dos analgésicos salta para as drogas pesadas.

Cage se envolve com uma prostituta e, às vezes, ambos se entopem de drogas. Ele fica endividado com seu fornecedor. A situação complica-se quando investiga um caso de múltiplo assassinato, envolvendo imigrantes clandestinos. Como todo personagem de Herzog, o Nicolas Cage de Vício Frenético é um louco à sua maneira. Excessivo, ele vive dentro da sua obsessão - um sonho que ameaça virar pesadelo e que o diretor compartilha com o espectador. Personagem de Cage não é um mocinho tradicional, não é nem mesmo um mocinho. Boa parte da diferença do filme vem do seu desequilíbrio. Quando ele parece reassumir seu equilíbrio e reencontra o homem que salvou no começo, o espectador fica em dúvida sobre sua sanidade, ou se realmente deixou de se drogar. Os peixes sonham? E os homens?

Quem já entrevistou Abel Ferrara sabe que ele costumava interromper seus encontros com a imprensa para rápida ida ao banheiro, da qual voltava mais acelerado do que o mais frenético de seus personagens. É uma diferença em relação a Herzog, que é, naturalmente, frenético. Herzog indispôs-se com Ferrara porque o americano protestou contra o que lhe parecia uma apropriação indébita de seu trabalho. Herzog chegou a dizer que não tinha o menor interesse pelo cinema de Ferrara, mas lhe agradou o roteiro sombrio de Vício Frenético. Segundo ele, é uma refilmagem como qualquer filme de James Bond pode ser considerado um remake do anterior, o que não é verdade, salvo Nunca Mais Outra Vez e Cassino Royale.

A importância do novo filme, para o próprio Herzog, está em que ele reflete um aspecto da psique coletiva da América. A época atual é boa para o filme noir, avalia o cineasta. O mundo está enlouquecido e, como ele disse em Berlim, filmes não surgem do nada. Necessitam de um contexto. Os EUA pós George W. Bush e Katrina são o alimento de Vício Frenético.

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