Heróis sem fôlego em muita ação

Cansados, esses senhores têm de enfrentar muito barulho e explosões em Os Mercenários, rodado no Rio

Crítica: Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

13 de agosto de 2010 | 00h00

Na melhor cena de Os Mercenários, Mickey Rourke lembra para o personagem do ator e diretor Sylvester Stallone uma experiência de ambos durante a Guerra da Bósnia. Rourke lembra como passou pela vida matando e falhou no breve momento em que salvar uma vida teria feito a diferença, resgatando-o da sua miséria moral. Quando ele conta isso, é um homem fisicamente destroçado. O título brasileiro, Os Mercenários, não dá a medida do original, The Expendables, que se refere justamente a heróis cujo tempo já passou.

Descartáveis? Detonados? É a essência de Os Mercenários, que estreia hoje em salas de todo o País. O filme que Sylvester Stallone rodou no litoral do Rio despertava curiosidade por reunir a nata do cinema de ação da atualidade - Jason Statham, Jet Li. Mas Stallone andou desdenhando do Brasil ao fazer a promoção do filme na Comicom, em San Diego. Falou mal dos brasileiros, chamou-nos de "macacos". Para complicar, está sendo acionado por dívidas que teria contraído no Brasil, durante a filmagem. A vaga simpatia de Os Mercenários poderia obter virou antipatia, pura e simples.

O filme não é bom, mas tem coisas boas. É muito barulhento, explosivo, desleixado. Mas o solo de Mickey Rourke, a grande cena do ator, possui uma densidade que merece atenção. Rourke não foi tão bom nem em O Lutador, de Darren Aronofsky, que o resgatou do esquecimento, candidatando-o ao Oscar. Aronofsky exagera nos efeitos dramáticos, complica o visual. O estilo direto - e sujo - de Stallone capta melhor a essência de Rourke como homem perdido.

O filme é sobre grupo contratado para aplicar um corretivo num ditador latino-americano. Mas, ao chegar à ilha de Vilena, os mercenários descobrem que o verdadeiro vilão da história é o gringo que manipula o ditador. A filha deste último integra a resistência. É pela garota que o velho Stallone vai voltar à ilha. Outra cena emblemática - além da de Rourke - o mostra num breve diálogo com Bruce Willis e Arnold Schwarzenegger. Os velhos heróis estão cansados. Stallone não consegue correr mais, apanha uma surra homérica. Os novos heróis quase não têm chance. Jason Statham fez filmes melhores, as coreografias de ação de Jet Li querem ser cômicas e conseguem apenas parcialmente.

Mas nessa mediocridade que é Os Mercenários se destacam o conceito e alguns momentos. Stallone, conscientemente ou não, bebe na fonte de Sam Peckinpah, retirando Meu Ódio Será Sua Herança, The Wild Bunch, das transformações do Velho Oeste para as complexidades do mundo atual. Os heróis são mercenários, alguns já deveriam ter-se aposentado. Mas a mística do grupo, da virilidade, os mantêm unidos. Embutida nessa história, está uma reflexão sobre o tempo perdido. Nós, que nos queríamos tanto, que tínhamos ideais. O personagem de Dolph Lundgren é traidor, apanha de novo de Sly - depois de Rocky 4 -, mas tem direito a segunda chance. O ditador, mirando-se na filha - a brasileira Giselle Itiê, da novela Bela, a Feia -, lamenta haver perdido o rumo e diz que vê nela o que gostaria de ter tido coragem de seguir sendo. E há o desabafo de Mickey Rourke. São fragmentos, pequenos toques do bom filme de ação que Os Mercenários "quase" chega a ser.

Trailer. nome

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