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Heróis do complexo do alemão

O diretor Mário Patrocínio fala do premiado filme sobre a região carioca que estreou em Portugal

Daniel Lisboa, O Estado de S.Paulo

20 de janeiro de 2011 | 00h00

Intimidade com o tema a ser abordado. Se esse é um pré-requisito desejável para a realização de um documentário, os irmãos portugueses Mário e Pedro Patrocínio podem dizer que o seguiram à risca. Após testemunharem, entre 2005 e 2007, a rotina dos moradores do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, os cineastas realizaram o documentário Complexo - Universo Paralelo. Apresentada ao público brasileiro durante a edição do ano passado do Festival Internacional de Cinema do Rio, a obra recebeu, em novembro passado, o prêmio de Melhor Filme Internacional de Direitos Humanos no Artivist Film Festival em Hollywood, nos Estados Unidos.

O documentário baseia-se nos depoimento de três moradores do conjunto de favelas e, apesar das filmagens terem ocorrido durante uma grande operação policial em 2007, não há cenas de grande violência. Ao invés de sangue, o diretor Mário e o diretor de fotografia Pedro priorizaram os dramas pessoais e visões de mundo de Seu Zé, responsável pela Associação de Moradores do Complexo há mais de 30 anos, Dona Célia, mãe de sete filhos, e MC Playboy, cantor de funk admirado na comunidade.

Também conta com depoimentos de traficantes, mas é por meio desses três personagens que os irmãos Patrocínio aproximam o espectador de uma realidade que, até a invasão do Complexo do Alemão pelas Forças Armadas no fim do ano passado, era quase sempre associada unicamente ao crime organizado.

Complexo - Universo Paralelo entrou em circuito em Portugal semana passada, mas ainda procura por um distribuidor no Brasil. A obra só foi concluída porque os cineastas cansaram de procurar por parceiros e recorreram ao próprio bolso para concretizá-la. Com medo de roubos, e de que os autores do projeto não sobrevivessem para concluí-lo, nenhuma produtora portuguesa ou brasileira quis financiá-lo. Em seu apartamento em Lisboa, Mário Patrocínio falou sobre os bastidores do documentário e o que pensa sobre o momento que vive, hoje, o Complexo do Alemão.

O que você sabia sobre o Complexo do Alemão antes de conhecê-lo de perto?

Quase nada. Fui de uma grande ingenuidade. Já havia assistido a filmes e documentários sobre as favelas mas, quando fui ao local ajudar em um clipe do MC Playboy em 2005, não tinha ideia daquela realidade, do assassinato do Tim Lopes (jornalista da Rede Globo morto por traficantes locais em 2002).

Como Complexo se diferencia de outros documentários brasileiros sobre o tema?

Acho que obras como Notícias de Uma Guerra Particular (1999, de João Moreira Salles e Kátia Lund) tiveram o formato certo para a época em que foram feitas, era preciso mostrar o problema de forma urgente e direta. O nosso filme é mais reflexivo, não é o documentário clássico com uma voz em off explicando tudo. Se fosse, iria criar uma distância para os personagens, tudo o que eu não queria.

Qual era a opinião dos seus colegas brasileiros sobre o trabalho que você e o seu irmão realizavam?

Muitos cariocas nos apoiavam por já terem tido a experiência de estarem na favela. Outros simplesmente nos viam como gringos sem noção, que achavam que conheciam aquilo. Mas isso mudava quando descobriam quantas vezes já tínhamos ido ao Complexo do Alemão.

Vocês chegaram a morar permanentemente no Complexo do Alemão?

Somente durante os 20 dias de filmagem. Mas íamos tanto ao local a ponto de dizer que vivemos lá durante quase três anos.

Como os portugueses têm recebido o filme?

As pessoas acham interessante uma mensagem positiva sobre a favela. Ainda mais no momento de crise que Portugal vive. Quando eles assistem ao filme, percebem quão sortudo são. E que têm tudo nas mãos para superar essa crise e muitas outras. Quando você tem um exemplo como o da Dona Célia, uma mulher heroica, uma mãe incrível, se pergunta quem somos nós para não sermos bem-sucedidos.

Qual a sua opinião sobre a recente operação no Complexo do Alemão?

Achei válida. Pela primeira vez, a polícia entrou no Complexo para se estabelecer e existe um PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) que prevê obras estruturais em saúde e educação. Mantenho contato com alguns moradores e eles estão esperançosos. Mas é preciso dizer que não se pode, por exemplo, gastar milhões construindo um teleférico enquanto gente como a Dona Célia ainda passa fome. Quer dizer, essas obras precisam vir acompanhadas de uma melhoria da qualidade de vida das pessoas.

PARA ENTENDER

Antes da chegada das Forças Militares, no fim de novembro, o Complexo do Alemão, no Rio, era associado quase que exclusivamente ao tráfico de drogas. Foi nesse clima que os irmãos portugueses Mário e Pedro Patrocínio acompanharam três personagens reais: Seu Zé, responsável pela Associação de Moradores do Complexo há 30 anos, dona Célia, mãe de sete filhos, e MC Playboy, cantor de funk respeitado na comunidade. O diferencial de Complexo - Universo Paralelo está na forma como aborda o cotidiano desses personagens, priorizando seus dramas pessoais e visões de mundo. A ocupação das Forças Armadas acenou com algumas melhorias na região, a mais importante talvez a construção de um teleférico, a ser inaugurado em março, para atender a comunidade. Mário Patrocínio vê com esperança essas medidas, embora seja precavido: "Não adianta gastar milhões com um teférico se a qualidade de vida dos moradores não melhorar, se gente como Dona Célia ainda passa fome", diz

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