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Heroínas de papel

Achei imensa quantidade delas do período 1930-1970. Talvez alcancem a meia centena

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

10 de junho de 2017 | 02h00

Fiz um filme. Há muito tempo; digamos 45 anos atrás. O único que tive a desfaçatez e a paciência de cometer. Era de encomenda, mas não de propaganda, nem institucional. Curto, talvez uns 20 minutos, e a única cópia, se ainda nos recônditos da Cinemateca do MAM, deve estar praticamente invisível. Melhor assim. 

Dois jovens cineastas amazonenses, com um estoque de filme virgem sobrando no laboratório da Líder, me propuseram usá-lo num curta, sobre o que me desse na telha. Um deles arriscou um palpite: “Pense em algo sobre histórias em quadrinhos. Sai até mais barato porque pode ser todo feito em table top”. 

(Parêntese necessário: eu era tido, naquela época, como expert em quadrinhos desde que tivera uma coluna semanal sobre o assunto no Jornal do Brasil, na segunda metade da década de 1960.)

Pensei em algo bem despretensioso: um ensaio filmado sobre a presença das mulheres nos quadrinhos. Tinha um texto pronto, bastaria enxugá-lo e ilustrá-lo, com uma narração em off (do autor) e uma trilha sonora 90% cinematográfica e 100% pirateada, na qual, diga-se, o hitchcockiano Bernard Herrmann brilhou, como sempre. Pareceu-me, pronto, um “comercial de gibi” - ou melhor, das mulheres que se destacaram na varonil e já quase centenária história dos quadrinhos. Hoje, creio, só não lhe mudaria o título (Heroínas de Papel) e a trilha sonora.

Estimulado pelo estrepitoso lançamento do filme Mulher-Maravilha, fui atrás do que do meu gibi filmado parecia mais acessível: o roteiro e a lista das ilustrações utilizadas. Nem esse palimpsesto encontrei, mas o artigo que lhe dera origem sim. Como nele tratei a Mulher-Maravilha? Com justificável superficialidade.

 

No início dos anos 1970, reduzida a mero conceito masculino do que deveria ser um super-herói feminino, ela se transformara numa peça de museu, quase sem audiência, a despeito da levantada de bola que na época lhe deram o seriado de TV (estrelado por Lynda Carter, que de despiciendo só tinha a boca) e a capa do primeiro número da revista Ms., sofisticada publicação feminista editada por Gloria Steinem em que Wonder Woman era lançada à presidência da República. O pulo da gata só se daria na década seguinte, e apenas nos quadrinhos, graças ao ousado desenhista George Pérez, que a modernizou da tiara aos pés.

Minha recensão das heroínas de papel não se ateve às mocinhas com superpoderes surgidas na esteira da Mulher-Maravilha, ela própria sucedânea feminina de Super-Homem, três anos mais antigo. Remontei a 1913, à primeira garota não incidental e acidental dos comics, Fifi, filha de Maggie (Marocas) e Jiggs (Pafúncio), o casal mais novo-rico da América. Debutante virginal ao estilo Belle Époque, às vésperas dos loucos anos 20 Fifi tornou-se moderninha, melindrosa e maliciosa. 

A metamorfose de Fifi coincidiu com a aparição de Winnie Winckle (1920) e Tillie (1921), duas moçoilas trabalhadoras, daí seus cognomes: Winnie Winckle, “the breadwinner” (que ganha seu pão) e Tillie “the Toiler” (que dá duro). Haviam entrado no mercado de trabalho na vazante masculina forçada pela 1.ª Guerra Mundial e lutaram pela inserção da mulher no mercado de trabalho. Tillie serviria no contingente feminino do Exército na guerra seguinte.

 

Acreditava não haver deixado nenhuma figura importante de fora: da adorável e esperta detetive Connie (e que belo traço tinha seu criador, Frank Godwin) às mulheres fatais de Milton Caniff (Miss Lace), às ancilares parceiras de Flash Gordon (Dale Arden), Tarzã (Jane), Fantasma (Diana Palmer), Mandrake (Narda), Ferdinando (Violeta), Brucutu (Ula), e aquelas ninfas que atravessaram a vida do Príncipe Valente (nenhuma tão linda quanto a princesa Aleta, meu primeiro coup de foudre de papel), alcançando as liberadíssimas ninfas europeias (Barbarella, Jodelle, Pravda, Valentina, etc., linhagem em franca expansão na época), todas genealogicamente ligadas à Mulher-Maravilha.

Descobri esta semana a imensa quantidade de heroínas de papel do período 1930-1970 pelas quais passei batido, não por idiossincrasia, mas ignorância mesmo. Talvez alcancem a meia centena. Não lhes fui apresentado por Jill Lepore, a jornalista da revista The New Yorker cujo volumoso e luminoso ensaio sobre A História Secreta da Mulher Maravilha acaba de ser traduzido pela Best Seller, mas por Hope Nicholson num livro recentíssimo com a metade do tamanho e da densidade da “biografia” de Wonder Woman: The Spectacular Sisterhood of Superwomen” (Quirk Books).

 

A espetacular irmandade das supermulheres abriga quatro antecessoras da Mulher-Maravilha, só nos anos 1930 (The Magician From Mars, Olga Mesmer, Sally the Sleuth e Torchy Brown), e mais de uma dezena de contemporâneas dela nos comics da década em que ela surgiu. A Mágica de Marte tinha nome que mais parecia uma senha na internet (Jane 6EM35) e era uma ET futurista de mãe terráquea e pai marciano, dotada de superpoderes inacreditáveis, como abolir o tempo e o espaço e concretizar todo e qualquer desejo com a força da mente. Dois marmanjos, John Giunta e Malcolm Kildale, lançaram-na um ano depois da aparição de super-homem.

Mulher-Maravilha surgiu em 1941, cria de William Moulton Marston, igualmente célebre por ter inventado o detector de mentiras. Inspirou-se Marston numa utopia feminista, Herland, publicada por Charlotte Perkins Gilman em 1915. Missão principal: defender a América, “última cidadela da democracia”, e a igualdade de direitos das mulheres. O livro de Lepore reconstitui toda sua gênese desde as raízes míticas gregas, sem negligenciar o nada ortodoxo relacionamento de Marston com a esposa, Elizabeth Holloway, vértice ou hipotenusa de um pitoresco mas criativamente fértil triângulo amoroso. 

Lepore deleitou-se com o filme de Patty Jenkins, ainda que lamente seu desprezo pelo mito das amazonas (Diana é, era ou foi uma amazona). O deslocamento da ação para a Primeira Guerra Mundial deu, a seu ver, “maior senso cronológico” à evolução da personagem, pois o modelo real de Wonder Woman foram as mulheres formidáveis que, no início do século passado, lutaram pelo voto feminino, a igualdade de direitos e o controle da natalidade.

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