Herói de dois mundos

John Carter põe na tela o mundo de Burroughs, o precursor de George Lucas e James Cameron

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

16 de março de 2012 | 03h11

Taylor Kitsch, que faz Jack Carter, lembra muito o Tarzan desenhado por Burne Hogarth. No livro Uma Princesa de Marte, Edgar Rice Burroughs descreve seu cabelo curto. No filme, é longo como o do homem-macaco criado pelo escritor norte-americano. Alex Raymond, que ilustrou Flash Gordon, também criou Jim das Selvas baseado em Tarzan e o intérprete das aventuras do herói intergaláctico, Buster Crabbe, foi o homem-macaco em vários filmes. Todos esses elementos se misturam e ganham agora a tela no que se propõe a ser uma nova franquia.

John Carter - Entre Dois Mundos é uma aposta da Disney, que investiu US$ 250 milhões para que o diretor Andrew Stanton colocasse na tela o soldado confederado que acorda em Barsoom. Para o espectador não familiarizado com o universo de Carter - Uma Princesa de Marte está saindo agora no País -, muita coisa parecerá já vista. Na verdade, é o contrário. George Lucas e James Cameron já disseram que sem Burroughs talvez não houvesse Star Wars nem Avatar. A persona avatariana de Sam Wortinghton, seu duplo, vem de John Carter.

Algo de importante se passa no cinema de ação de Hollywood. Um diretor de animação, Brad Bird, de Ratatouille, reinventou a franquia Missão Impossível. Outro egresso da animação, Andrew Stanton, lança as bases do universo de John Carter. Stanton dirigiu Wall-E, cujos temas eram a decadência da civilização e o amor. Ambos se reencontram em Entre Dois Mundos. O filme começa no final do século 19, com o herói perseguido. Logo, ele morre e, por meio de um manuscrito, seu herdeiro, Edgar Burroughs, descobre uma história mirabolante.

Soldado na Guerra Civil dos EUA, Carter voltou para uma casa destruída - e uma mulher assassinada. A cena, que atormenta os pesadelos do herói, evoca o clássico Rastros de Ódio, de John Ford, que George Lucas recriou em Star Wars 4. John Carter leva uma vida errante no Velho Oeste. Procura ouro, mas será realmente o metal que procura? O que parece o acaso o projeta no espaço e ele vai para Barsoom, que, na verdade, é Marte.

Barsoom vive a guerra dos mundos. Por meio de seus emissários, a Deusa seleciona os planetas que serão sugados. John Carter participa dessa luta. Ganha aliadas. Sola o liga aos tharks, Dejah é a princesa de Helium. A filha rejeitada - mas não é bem assim - e a mulher amada, que oferece respostas, inclusive se o herói voltará à Terra.

O público vai fazer valer o investimento? John Carter virará franquia? São perguntas ainda sem respostas. O filme, em 3D, é admirável como espetáculo. Uma bela aventura tradicional feita com tecnologia de ponta. Tem ação, romance, personagens e paisagens exóticos. Como o atormentado Thor, Carter é separado de Dejah, mas acha, e de forma engenhosa, um caminho de volta. Na ficção de Carter, ele outorga ao jovem Burroughs a tarefa de escrever, e de sua lavra surgirá, metalinguisticamente, a saga de Barsoom. Por uma vez, o cinema está fazendo justiça à imaginação delirante de Edgar Rice Burroughs.

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