Herói às avessas, solitário e cético

A Educação Sentimental explora a sátira e expande o gênero do Bildungsroman

Sergio Augusto, O Estado de S.Paulo

31 de dezembro de 2010 | 00h00

A Educação Sentimental foi o meu primeiro coup de foudre literário, na adolescência. Encantei-me primeiro por seu título; depois identifiquei-me com seu protagonista, Frédéric Moreau, um jovem provinciano de 18 anos que se apaixona por uma mulher casada e alguns anos mais velha, na Paris de 1840. Frédéric é o oposto de Emma Bovary: não sonha com a animação e o glamour da capital; para lá se muda com o intuito exclusivo de aperfeiçoar sua educação. Só mais tarde, já refeito da paixão recolhida pela sra. Arnoux, irá curtir a boemia parisiense, por conta de uma herança. Mas, a essa altura, o romance já terminou.

Filiado a uma linhagem a que pertencem O Vermelho e o Negro, Ilusões Perdidas e Grandes Esperanças, é e não é um Bildungsroman, um romance de aprendizado; talvez um Bildungsroman às avessas, já que seu protagonista nada usufrui de positivo de sua difícil e dolorosa educação sentimental. Frédéric acaba relativamente solitário, cético, desencorajado.

F.W. Dupee encontrou traços de Voltaire e Swift no irônico arcabouço narrativo de Educação Sentimental, a meu ver, procedentes. Há um tempero satírico no romance que nem todo leitor percebe. Ford Madox Ford, que o leu 14 vezes, percebeu. Se com Madame Bovary Flaubert inventou o romance moderno, com A Educação Sentimental inventou o anti-herói moderno. Publicado em 1869, sua recepção foi desastrosa. Tacharam-no de vulgar, amoral, sensualista e negativista. George Sand saiu em seu socorro e outras vozes vieram, aos poucos, se juntar ao coral dos entusiastas. Era o melhor romance de Flaubert, na opinião de Proust, Kafka e Joyce.

Contrariando o marxista Lukács, Edmund Wilson considerava-o um clássico da literatura socialista: "Na verdade, a apresentação que Flaubert faz da Revolução de 1848 se aproxima de modo tão impressionante da análise de Marx dos mesmos acontecimentos que vale a pena examinar sob o mesmo foco as figuras diversas de Flaubert e Marx a fim de ver como dois grandes espíritos do século 19, seguindo caminhos tão divergentes na aparência, chegaram a interpretações idênticas dos fatos de sua própria época". Flaubert tinha a exata dimensão do alcance do seu romance, da educação política nele embutida sobre as ilusões revolucionárias e os inúteis estragos por elas fomentados. Em 1871, ao ver o que a Comuna fizera nas Tulherias, comentou: "Isso jamais teria acontecido se tivessem compreendido A Educação Sentimental". E voltou, consternado, para o campo.

SERGIO AUGUSTO, JORNALISTA, É COLUNISTA DO SABÁTICO

A EDUCAÇÃO SENTIMENTAL

Autor: Gustave Flaubert

Tradução: Adolfo Casais Monteiro

Editora: Nova Alexandria

(416 págs., R$ 65)

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