Hermético, ma non troppo...

O que vou contar (com direito a flash-backs), ocorreu há duas semanas no Golden Room do Copacabana Palace. Hermeto Pascoal, estrela da noite no Copa Fest, pisou no palco aos 30 minutos de sábado, 17 de abril. Tudo no melhor estilo do Bruxo: ele e Aline Morena, sua mulher e cantora, chegaram em cima da hora de Curitiba; os demais músicos vieram de outras paragens. Não viam Hermeto havia meses, mas é só chegar perto que a coisa clica. Itiberê Zwarg, baixista, 60 anos, toca há mais de 30 com Hermeto, telepatia pura. É assim com todos os instrumentistas criados debaixo das asas do Mestre, ensaiando toda tarde na casa do Bairro do Jabour. Na dialética do Bruxo, a liberdade total do improviso só é atingida ao custo de uma vida de trabalho e disciplina. Nos últimos 40 anos, Hermeto lançou centenas de discípulos; muitos vieram até dos EUA e da Europa, fizeram seu aprendizado e voltaram direto ao aeroporto do Galeão.

ROBERTO MUGGIATI, O Estado de S.Paulo

24 de abril de 2010 | 00h00

Começa o show no Copa Fest. Hermeto, no vigor dos seus 73 anos, tem os pés no forró, no baião e no xaxado de sua Lagoa da Canoa, município de Arapiraca, Alagoas. Já a cabeça está nos píncaros das vanguardas, dodecafonismo, concretismo, Stockhausen & Cage.

Julho de 1979. Estou num avião da Varig a caminho da Suíça com Hermeto e sua banda. Rio-Genebra, escalas em Dacar e Paris. Vai ser sua estreia europeia no Festival de Montreux. Sobrevoando a França, leio um artigo no International Herald Tribune sobre Hermeto Pascoal, A Brilliant Brazilian to Play at Montreux, que comenta o recém-lançado álbum Zabumbê-bum-á: "Um soprano conduz um grupo de saxofones estreitamente entrosados. As figuras polirrítmicas e politonais são uma espécie de Berg incrementado com jazz. Surge a selva. Passagens melódicas implicam Stevie Wonder. Campainhas, buzinas, apitos, uivos e estalidos saem direto da filosofia de John Cage. Algumas texturas devem fazer Frank Zappa se olhar ao espelho. Podemos reconhecer Sun Ra e Kurt Weill e uma breve sequência é tirada de Giant Steps de Coltrane, como que para dizer: "Vejam, nós também podemos fazer isso!""'' Quem escreve sabe das coisas: é Michael Zwerin, trombonista de jazz que participou da banda-protótipo de Miles Davis que gravou Birth of the Cool ao vivo em 1948 no Royal Roost de Nova York.

No Copa Fest, 2010, temos uma banda-família: a mulher Aline apunhalando melodias nos agudos; o filho Fábio Pascoal numa relação carnal com a percussão, uma traquitana heterodoxa de fundo de quintal; o genro, Márcio Bahia, na bateria; e, mesmo não-consanguíneos, os filhos espirituais Itiberê (baixo), Vinícius Dorin (sopros) e Andre Marques (piano). O Bruxo, chapéu de couro, camisa estampada floral, calça branca, cabelões e barbas brancas de profeta, comanda do seu teclado eletrônico o ritual sonoro. De vez em quando toca a escaleta, faz um solo de chaleira ("esta chaleira tem história") e viaja pelas Águas de Março alternando gritos e sussurros no tubo recurvado da flauta baixo, a Flauta Vovó. Hermeto fala dos primeiros tempos no Rio, quando era esnobado pela rapaziada ZS da bossa nova, que o rejeitava como "o homem do baião."

Único no mundo a tocar todos os instrumentos, vi num domingo de 1983 um show do Bruxo no IBAM do Rio de Janeiro, cinco horas ininterruptas. Hermeto Pascoal tocou teclados, sanfona, escaleta, saxofones, flautas, trompete, flugelhorn, bombardino, violão, cavaquinho, contrabaixo, bateria, percussão. Às 2 horas da manhã, os funcionários da sala expulsaram a galera e fecharam as portas. Hermeto saiu com a banda soprando seu saxofone pelas ruas de Botafogo, seguido por um punhado de bravos que gostaria de ouvir seu som até morrer.

Foi assim também em São Joaquim, no Festival da Serra Catarinense, em julho de 2009: numa sensação térmica de dez graus abaixo de zero, Hermeto botou a plateia para dançar - meninos, eu vi (e ouvi). Já passava das 2 horas no Golden Room quando Hermeto e banda desceram o palco e saíram tocando no meio do público, como nas paradas de rua da velha New Orleans. Quer mais jazz do que isso, cabra da peste?

ROBERTO MUGGIATI É PESQUISADOR E ESCRITOR, AUTOR DO LIVRO IMPROVISANDO SOLUÇÕES

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.