Herdeiros de Fernando Zarif e Gaspar Gasparian investem na recuperação e divulgação de obras

Fernando Zarif criou compulsivamente em diferentes técnicas e formatos

Camila Molina, O Estado de S. Paulo

12 de fevereiro de 2014 | 19h03

Em uma casa no bairro de Pinheiros, em São Paulo, fica guardada a maior parte das 2.008 obras já catalogadas do artista plástico Fernando Zarif (1960-2010). Um teleiro foi construído em um quarto para abrigar as pinturas e há uma mapoteca em outro cômodo, para os desenhos. Na sala principal, uma exposição está montada com peças nas paredes e a escultura de um esqueleto repousa no chão. “Ele não deixaria fazer nada disso que estamos fazendo aqui”, diz a mãe do artista, May Zarif. Ela se refere ao temperamento do filho e à criação do Projeto Fernando Zarif, em atividade desde agosto de 2011.

Cada vez mais, familiares de criadores tomam para si a tarefa de cuidar e divulgar a obra que lhes restou. A casa que se tornou, há um ano e meio, a sede do Projeto Fernando Zarif – ainda não se trata de um instituto – já pode até ser visitada pelo público. A ideia é que seja não só um espaço expositivo como de pesquisa.

Outra iniciativa da família do artista foi custear a edição do livro Fernando Zarif – Uma Obra a Contrapelo (Metalivros, 271 págs., R$ 100), que será lançado na segunda-feira, na Galeria Millan, em São Paulo, e na próxima quinta-feira no Museu de Arte Moderna do Rio – em ambos os lugares, eventos acompanhados de exposições.

O Estado também teve acesso ao caso do fotógrafo Gaspar Gasparian (1899- 1966) – desde 2006, seu filho vem trabalhando para tornar a obra de seu pai mais conhecida.

 

 

 

Como dizem amigos, o artista paulistano Fernando Zarif viveu cada dia como se fossem dois. O mesmo se pode dizer de sua obra – criou, compulsivamente, pinturas, esculturas, desenhos, fotografias, performances, concertos, capas de discos (como o de Titanomaquia, da banda de rock Titãs), músicas, videoinstalações. Morto em 24 de dezembro de 2010, deixou suas criações em dois apartamentos onde morou em São Paulo. Tinha um temperamento difícil, não queria vender seus trabalhos, nem fazer parte do mercado de arte. “Ele brigava com os galeristas, eu aceito, é verdade”, diz sua mãe, May Zarif. “Artista tem outra cabeça, tem outro tipo de genética”, ela brinca.

"O Fernando produzia muito. Logo depois de ele falecer, achamos que deveríamos catalogar tudo, limpar, restaurar. Havia muitas obras na nossa fazenda, em Botucatu, nos apartamentos dele, e também na França, pois ele fez uma exposição lá (em 1998, na Maison Des Arts André Malraux, em Créteil)”, conta o empresário Ivan Zarif Junior, irmão mais novo do artista (por mais de 60 anos, a família Zarif foi do ramo têxtil).

Depois de conversas com o galerista André Millan (das 9 exposições que Fernando Zarif realizou, 5 foram em sua galeria) e com o escultor José Resende, grande amigo do multicriador, May e Ivan contrataram, em agosto de 2011, a restauradora Margot Crescenti e a jornalista Cristina Candeloro Quinn, que se dedica à catalogação de acervos, para realizar amplo trabalho em torno da obra do artista plástico. Primeiro, trabalharam no apartamento de Zarif no Itaim. Depois, há um ano e meio, a coleção de pinturas, desenhos e outras criações, assim como peças pessoais – livros, discos, pinceis, tintas foram levados para uma casa em área nobre do bairro de Pinheiros. É lá, mediante agendamento, que os interessados podem ver de perto as obras do artista (através do e-mail mailto:info@fernandozarif.com.br).

Até agora, foram catalogados 2.008 itens. “E tem mais, faltam os que estão com outros colecionadores”, diz Cristina Candeloro. “Fizemos um trabalho arqueológico”, afirma Margot. “As obras estavam bagunçadas, mas em bom estado”, conta ainda a restauradora.

Fernando Zarif sempre viveu rodeado de amigos e sua casa sempre foi ponto de encontro e de criação (até a coreógrafa Pina Bausch a frequentou). “Não teve um que não tenha sido fiel a ele depois de morto”, diz May Zarif. O escultor José Resende, por exemplo, organizou a edição do livro Fernando Zarif – Uma Obra a Contrapelo, que reúne reproduções de cerca de 300 obras do artista, além de textos de época e inéditos de Décio Pignatari, Tunga, Arnaldo Antunes, Lenora de Barros, Barbara Gancia, Fernanda Torres, Bia Lessa e Maria Borba.

Outra amiga, Leticia Moura, fez o design gráfico da obra. O lançamento em São Paulo ocorre na segunda-feira, às 20 h, na Galeria Millan (R. Fradique Coutinho, 1.360), que vai comercializar e exibir, até dia 27, as obras do artista. Já no dia 20, às 18 h, o livro será lançado no MAM do Rio com a reedição da exposição/performance Cadernos, sob direção de Bia Lessa, Maria Borba e Resende (repetição no dia 22). A ação, feita com cadernos do artista, será uma remissão a sua última atividade pública, em 2009 no Espaço Tom Jobim.

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