Heranças compartilhadas

Para diretor da Alvin Ailey American Dance Theater, viagem ao Brasil é oportunidade de celebrar influência da tradição africana na dança contemporânea

TONICA CHAGAS , ESPECIAL PARA O ESTADO , NOVA YORK , O Estado de S.Paulo

22 de julho de 2013 | 02h14

A turnê marcada para setembro será a quinta viagem da companhia Alvin Ailey pelo Brasil. Em 1963 no Rio, em 1978 em São Paulo, e novamente no Rio em 1981, tinha seu fundador no comando; em 1998, quando foi vista nessas duas capitais e também em Salvador, Curitiba e Brasília, a direção artística era de Judith Jamison.

"Ir ao Brasil é realmente importante para mim", diz Battle. "Estou muito entusiasmado em voltar agora como diretor da Alvin Ailey porque me lembro como a resposta do público tinha uma energia esmagadora e será muito bom para os nossos bailarinos sentirem o quanto dividimos com os brasileiros a influência cultural africana." Mas ele ainda se sente intimidado pelo ritmo de São Paulo, que acredita ser mais intenso do que o de Nova York. "Assim que se põe o pé para fora da porta, vem uma onda de gente e você não pode parar nem para pensar aonde vai!"

Como nas visitas anteriores, os dois programas da próxima temporada no Brasil são coroados pelo clássico dos clássicos da companhia, Revelations, balé criado por Ailey em 1960. Provavelmente a mais vista das peças de dança moderna no mundo, Revelations foi inspirada pelas memórias que Ailey trazia de sua infância no Texas. Embalada por músicas religiosas, ela lembra batismos, conversas na varanda, festas e sentimentos profundamente enraizados na população negra americana, uma herança cultural que é, segundo o coreógrafo, "às vezes pesarosa, às vezes jubilosa, mas sempre esperançosa". Nessa mesma linha vem Grace, balé que o nova-iorquino Ronald K. Brown criou para a Alvin Ailey em 1999 e também se tornou um dos destaques da companhia.

Já parte do seu projeto de trazer novas coreografias para o repertório da companhia, Battle incluiu no programa a estreia mundial de Four Corners, mais recente trabalho de Brown. Inspirada em textos do poeta e artista multimídia Carl Hancock Rux e numa visão de quatro anjos segurando quatro ventos nos quatro cantos da Terra, Four Corners tem um toque de Brasil: um dos parceiros de Rux na trilha da coreografia é o amazonense Vinícius Cantuária, que vive nos Estados Unidos desde meados da década de 1990. Outra estreia neste programa é From Before, simbiose de ritmos africanos e música caribenha criada em 1978 por Garth Fagan. É a primeira obra do coreógrafo jamaicano encenada fora da Garth Fagan Dance.

Minus 16, do israelense Ohad Naharin, é um dos primeiros grandes desafios apresentados aos 30 integrantes da companhia por seu novo diretor artístico. A peça é de 1999 e reúne trechos de outras criações de Naharin baseadas na linguagem de movimentos desenvolvida por ele, o "método Gaga" (sem relação e anterior ao surgimento da cantora pop Lady Gaga). "Ela é diferente de tudo o que já fizemos, estimula a improvisação e quebra a barreira entre os dançarinos e a plateia", diz Mathew Rushing. Diretor de ensaios e artista convidado da companhia, da qual participa há 20 anos, Rushing diz que Battle está dando ao elenco "opções artísticas, com reverência ao passado e a visão no futuro".

No programa estão ainda dois trabalhos do próprio Battle: o dueto masculino Strange Humors, que ele coreografou em 1998 para a Parsons Dance, e o solo masculino, velocíssimo e cheio de humor Takademe, de 1999, feito em cima de um scatting da cantora inglesa, filha de indianos, Sheila Chandra. "Adoro a articulação, o ritmo, os gestos da dança indiana", conta Battle, ao lembrar que criou Takademe na sala do apartamento de um amigo. "Por isso ela ocupa um espaço tão pequeno no palco", explica.

Espaço é o que não falta hoje para as ideias dele. A sede da companhia que dirige, na esquina da 9ª Avenida com a Rua 55 (que naquele trecho leva o nome de Alvin Ailey), em Manhattan, ocupa um edifício de dois subsolos e seis andares quase totalmente de vidro; dois dos 12 estúdios são exclusivos para os ensaios da Alvin Ailey. É o maior prédio dedicado exclusivamente à dança na cidade que se intitula a capital da dança. Ali, a companhia principal está começando os ensaios de cinco novas coreografias escolhidas por Battle para sua temporada de fim de ano.

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