Herança de mágoas

Em Correnteza, nova peça da dramaturga Gabriela Mellão, um ator interpreta três homens de um mesmo clã

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES, O Estado de S.Paulo

02 de fevereiro de 2012 | 03h09

A linguagem não é exatamente um meio de apreender o mundo, a forma de traduzir aquilo que se vê. Mas a própria lente através da qual enxergamos tudo. Em seu novo texto, Correnteza, a dramaturga Gabriela Mellão cuida de devolver às palavras certa primazia.

Na peça, que estreia hoje, termos desgastados pelo uso cotidiano - dor, morte, tempo - são embaralhados até ressurgirem com outro ímpeto. Servem para dar conta das angústias de três gerações de homens de uma mesma família. "Acredito no poder que as palavras possuem, na capacidade que a sonoridade tem de construir atmosferas", comenta Gabriela.

Cabe a um único intérprete, Alvise Camozzi, manejar a torrente verbal que corre pela boca dos três personagens. Na encenação proposta pelo diretor Mauricio Paroni de Castro, as figuras de um avô, um pai e um filho se desdobram no mesmo corpo. "Eles não deixam de ser um só", observa Paroni. Tornam-se contaminações e espelhamentos um do outro.

No leito de morte do pai, estão o filho e o avô (ou o fantasma dele). É sob a égide do fim que o trio examina faltas, falhas e ressentimentos. Para escrutinar tal passado doloroso, porém, não recorre a um "acertos de contas". Não há diálogos. Apenas mágoas a serem narradas.

Narração, aliás, é um termo precioso para compreender as intenções que atravessam a dramaturgia e também a forma como Paroni de Castro resolveu levá-la à cena. Sentado em uma cadeira, o ator está praticamente imóvel. Atrás dele, apenas uma projeção reproduz a imagem de um homem que cai e se levanta constantemente.

Toda a atenção concentra-se no que é dito. Assim como na maneira de dizer. "Trata-se de seguir o ritmo ditado pelo texto", considera o diretor. "Tudo é falado e não interpretado. O ator é o suporte, não os personagens."

Ao discorrer sobre sua concepção, o encenador recorre a uma figura cara ao cinema japonês: o benshi. Até meados do século 20, o benshi merecia mais atenção do público oriental do que os próprios atores dos filmes. Com raízes no teatro nô e Kabuki, ele tinha a missão de fazer as vozes de todos os personagens. Mas não apenas isso. Possuía a incumbência de narrar e, em muitos casos, a liberdade de apresentar sua própria versão para a história contada.

Em Correnteza, Alvise Camozzi não utiliza recursos para diferenciar as falas de cada um dos três homens. Por vezes, constrói marcas nítidas que indicam a passagem de um papel para o outro. Essa, porém, não é a regra. "Entro e saio desses personagens sem quebras. É um fluxo", considera o ator. Em diversas passagens, os relatos de pai, filho e avô se confundem. "À beira da morte, o pai revisa derrotas, violências que envenenaram o sangue de sua família e sonhos suspensos tendo o filho ao seu lado e o espectro do avô (seu pai) em todos os lugares", pontua a dramaturga. "Neste momento de término, que paradoxalmente também convida a recomeços, os três desperdiçam a última oportunidade que a vida lhes oferecepara romper o fluxo habitual."

O espetáculo marca o reencontro artístico de Alvise e Paroni, ambos italianos e com um passado em comum nos palcos. A despeito disso foi escrita sob medida para outro intérprete: Alberto Guzik. "Queria criar algo que o desafiasse como ator", diz Gabriela. Morto em 2010, o ex-crítico de teatro do Jornal da Tarde e do Estado tinha planos de fazer a obra e chegou a escrever sobre ela: "É poesia, mas é também observação cruel da matéria humana".

Escrita em versos, a peça tem o intuito de oferecer diferentes "portas de entrada" ao público. Deixa vazios intencionais que o espectador deve preencher com as próprias referências. Pode ser vista, crê a autora, como o retrato de um processo de desumanização, muito próprio dos nossos dias. Mas também como sinal inequívoco de quão fortes e insolúveis são os laços familiares.

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