Henze vanguarda de voz única

Compositor, morto na semana passada, defendia a comunicação com o público

JOÃO MARCOS COELHO , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

04 de novembro de 2012 | 02h09

São cada vez mais raros os compositores com inteligência e coragem para trilhar caminhos próprios, independentes. O século 20 pode ser musicalmente caracterizado como o tempo em que os compositores não podiam se omitir politicamente. Não bastava apenas fazer música. A omissão era tão vergonhosa quanto a adesão aos regimes totalitários. O alemão Hans Werner Henze, que morreu no último dia 27 de outubro, aos 86 anos, era basicamente um ser político. Sua trajetória não é tão conhecida como a de um Shostakovich, mas é tão permeada pela política quanto a do russo; e sua obra magnífica talvez não seja tão conhecida porque praticou a independência pessoal e artística, jamais ligou-se a grupelhos ou tribos. Compôs 10 sinfonias e duas dezenas de obras concertantes e/ou sinfônicas variadas, música para seis balés, vinte óperas e muita música de câmara.

Fez música a vida inteira, assumiu sua postura comunista escancaradamente, fez música política, lutou por seus ideais. "Eu me interessei pela música aos 13 anos", diz em seu livro Music and Politics (1982). "Fazer música, para mim, era como penetrar nos segredos do mundo. As cadências suspensas nos adagios das sonatas da chiesa de Corelli eram promessas cerimoniosas de amor; os allegros em Bach e Vivaldi representavam a excitação sexual". Música, para Henze, sempre foi coisa táctil, de pele. Como tudo em sua vida, sempre sob o signo da radicalidade. A realidade nazista que viveu menino ainda de calças curtas foi duríssima: seu pai o obrigava a usar o uniforme nazista.

Em 1946, vivia na área britânica, uma das quatro em que o Comando Aliado dividiu a Alemanha no pós-guerra. Aos 20 anos, usou passaporte falso para bandear-se ao lado norte-americano porque queria estudar música em Heidelberg. Frequentou o primeiro dos cursos de verão de Darmstadt em 1946, antes de aparecerem por lá Stockhausen, Luigi Nono e PierreBoulez. O curso foi iniciativa do comando norte-americano, decidido a "recuperar" a Alemanha revitalizando-a por sua arte nacional, a música, mas purificando-a dos desvios nazistas do período 1933-45.

"Ali ouvi pela primeira vez muita música feita no mundo enquanto na Alemanha vivíamos sob o nazismo, como Berg e Schoenberg." Henze dirigiu aqueles cursos, mas nunca concordou com o núcleo duro da Neue Musik de Darmstadt - é assim, Neue Musik, que ela ficou conhecida. Recusou com veemência a tendência dos expoentes da instituição, como Boulez e Stockhausen.

Um dos maiores estudiosos da música dos últimos 80 anos, Celestin Deliège alerta que "suas posições contra seus contemporâneos, na medida em que ele não está entre os adversários cuja crítica advém de falta de métier, ou amadorismo, requerem uma atenção vigilante". Ou seja, é necessário levá-lo a sério. "Henze se destaca pela solidez da escrita, o sentido da composição e a eficácia de suas orquestrações. Quando se nota certo relaxamento, é preciso atribuí-lo ao engajamento ideológico às vezes transparente demais", completa.

Ficou célebre o concerto, em 1958, no Festival de Donaueschingen, espaço proeminente da vanguarda europeia, em que Hans Rosbaud regeu Nachtstücke und Arien (noturnos e árias), onde há citações de músicas populares napolitanas e espanholas: Boulez, Stockhausen e Nono levantaram-se indignados e deixaram a sala logo aos primeiros compassos. O que os revoltou foi o gordo e consonante acorde menor, com a trompa fazendo um lírico solo logo na abertura. Horror, era bonito demais para os ouvidos de Stockhausen, Boulez e Nono. Argh! Henze era bom mesmo pra chocar...nclusive a vanguarda.

Não foi o único incidente. Henze conta que em 1956 o maestro Hermann Scherchen, depois de reger sua ópera König Hirsch, encontrou os quatro pneus de seu carro esvaziados no estacionamento. Represália de quem? Dos conservadores ou de algum preposto dos capos de Darmstadt, descontentes com seu abandono da música serial e a adoção de um ecletismo que virou sua marca nas décadas seguintes?

Enojado com tudo aquilo, Henze tomou duas providências: mudou-se para a idílica ilha de Ischia, na baía de Nápoles; e denunciou publicamente o establishment da Neue Musik. Para Henze, um certo tipo de música à la Webern era puramente fabricado, e o que não obedecia a esta cartilha era imediatamente rejeitado. Henze chama isso de "revival do fascismo", que passava a se reproduzir no microuniverso da música contemporânea.

A reação foi virulenta: o respeitado crítico francês Claude Rostand chamou a música que fez para o balé Maratona di Danza, em colaboração com Luchino Visconti, de "valsa num salão dodecafônico", e o musicólogo francês de origem russa Boris de Schloezer escreveu que "seu modernismo é de araque". Boulez ridicularizou: disse preferir uma música dos Rolling Stones a uma ópera inteira de Henze.

Em 1961, ele compôs Elegia para Jovens Amantes, sobre libreto de W. H. Auden. Trata-se de uma paródia do artista burguês enfocado como herói mas isolado da sociedade e da vida, refugiado no exercício de sua arte. Em duas palestras, em 1959 e 1963, Henze deixa claro: quer privilegiar a comunicação e oferecer uma estética oposta ao serialismo. E, homem de esquerda, coloca assim sua profissão de fé: "Devemos nos convencer de que, mesmo praticada com o mais sofisticado horizonte de conhecimentos técnicos e talento, e salpicada com sonoridades de palavras progressistas e refinadas, a música respira o mesmo ar que nos séculos precedentes e não pode decidir-se sem a ajuda dessas velhas ideias essenciais, sem imaginação e excitação. A este respeito, não é diferente da música anterior, cujo objetivo era descrever, representar e comunicar".

No Brasil, quem gosta dele são os violonistas, que tocam bastante sua obra, com destaque para Cimarron, sobre um escravo cubano fugido. Suas dez sinfonias também merecem uma primeira execução brasileira: é um caso onde vale a pena alterar as temporadas das orquestras já estabelecidas para 2013 ou então acrescentar um ciclo Henze (coincidência: a Osesp programou a orquestração de Henze para os Wesendonck-lieder de Wagner para 2013, mas deveria pensar numa sinfonia). O foco maior de sua contribuição à música do século 20 foi sem dúvida a ópera, completamente ignorada no Brasil. Se o Teatro Municipal de São Paulo continuar em 2013 no mesmo ritmo frenético e inovador deste ano, é possível que se tenha a chance de ver encenadas óperas como Boulevard Solitude, Venus und Adonis ou as derradeiras Upupa e Phaedra.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.