Hemingway o mito decifrado

Diretor de filmes como Os Eleitos, Philip Kaufman recupera vida do escritor e fala da carreira: 'Nunca tive tanta liberdade'

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

26 Outubro 2012 | 03h12

Philip Kaufman faz parte do imaginário dos cinéfilos de todo o mundo graças a filmes como A Insustentável Leveza do Ser e Os Eleitos, mas seu público aumenta muito mais se você acrescentar que foi ele quem criou Indiana Jones. Kaufman escreveu o primeiro filme da série, formatando o dublê de arqueólogo e aventureiro, mas divergências com o produtor George Lucas levaram à sua substituição por Steven Spielberg. O diretor veio ao Rio para apresentar Hemingway & Gellhorn na cerimônia de encerramento do festival. Deu entrevistas, mas para o Estado foi especial. A HBO, que produziu o filme e o apresenta amanhã à noite no País - às 22 horas -, reuniu Kaufman, seu filho e produtor e o astro Rodrigo Santoro para uma exclusiva, realizada num espaço mítico - a piscina do Hotel Copacabana Palace.

O cineasta tem adaptado escritores importantes (Milan Kundera, Tom Wolfe) e biografado outros (Henry Miller e Anaïs Nin em Henry e June, o divino marquês em Os Contos Proibidos de Sade). O que torna esses autores tão atraentes para Kaufman? "Ou eles contam histórias que são extraordinárias ou viveram vidas que são, elas próprias, extraordinárias", ele explica. O repórter arrisca outra interpretação - como personagens, os escritores escolhidos por Kaufman são quase sempre transgressores, não apenas contestadores. Colocam o tema do comprometimento, do engajamento social e político, e isso se faz por meio da tomada de consciência.

"Você define minha obra melhor que eu", diz o diretor, e ele abre um sorriso. "Consciência e militância sempre me atraíram, mas não são exatamente temas em alta nestes dias." Rodrigo Santoro, que faz um papel importante - mas ele não é Hemingway, interpretado por Clive Owen -, conta que Kaufman é o sujeito mais doce do mundo. "Embora se passe em vários países, numa verdadeira volta ao mundo, o filme foi filmado em estúdio e nos arredores de São Francisco. O tempo todo eu dizia a Philip que ele ia adorar o Rio. Mal ele chegou e o levei para ver um show de Gilberto Gil com o filho. Ele ficou muito emocionado." O próprio Kaufman conta: "Já sabia quem era Gilberto Gil, mas vê-lo tocar com o filho excedeu minhas expectativas. Foi mágico". O filho quase não fala - diz que o momento é do pai e de seu astro -, mas fornece uma informação importante.

Os últimos anos foram difíceis para Kaufman, que quase não filmou. Mas não foi por falta de inspiração nem mesmo por dificuldade de financiamento - embora ele diga que a experiência com a HBO tenha sido excepcional. "Nunca tive tanta liberdade em minha carreira." A mulher de Kaufman, mãe de seu filho, teve um câncer e ele parou com tudo para lhe dar atendimento. Uma história de amor clássica - unidos até que o morte os separou. Já a história de Ernest Hemingway e Martha Gellhorn é tumultuada. Viveram e se amaram no quadro da Guerra Civil Espanhola - na qual Rodrigo faz um líder republicano - e também em Cuba, mas o temperamento de ambos selou a separação litigiosa.

O filme é narrado em flash-back pela velha Gellhorn, que nunca desistiu de ser correspondente de guerra (a maior de todas). Como ela diz ao repórter que a entrevista, recusa-se a ser uma nota de rodapé na biografia de Hemingway. Acrescenta que ele foi uma figura notável, mas tinha um inimigo visceral - ele próprio. É da ambiguidade do grande homem que Kaufman tenta dar conta. O projeto veio da HBO, e quando Kaufman o assumiu já havia um esboço de roteiro, que não agradou ao diretor. Ele reescreveu tudo. O filme mostra o envolvimento de artistas e intelectuais nas brigadas republicanas. "John Dos Passos foi quem atraiu Hemingway para as brigadas, mas o episódio envolvendo Paco Zarra provocou uma divisão dos dois. Dos Passos deu uma guinada à direita, como reação ao stalinismo, que fez matar o líder republicano (o nome é fictício, mas o personagem é real). Para Stálin, não ficava bem apoiar um líder da guerra pela República que tinha um irmão do lado de Franco."

Boa parte do envolvimento na Guerra Civil é visto pelos olhos do lendário Joris Ivens e do documentário - Terra Espanhola -, que ele realiza. A primeira metade - a Guerra Civil - é melhor. Com orçamento modesto para os padrões de Hollywood (US$ 7 milhões), Kaufman faz milagres ao trabalhar a imagem e recriar a estada de Hemingway e Gellhorn em diferentes partes do mundo. O envelhecimento de Nicole Kidman, que faz o papel, talvez seja o melhor trabalho de maquiagem que você já viu, ou vá ver. Mas Kaufman não concorda que essa primeira parte seja melhor. "É a mais heroíca. É duro ver a miséria de nossos ídolos, e é do que trata a segunda parte. Sou suspeito, mas é minha preferida."

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