Hemingway é encenado em palco líquido

Rodrigo Matheus parece gostar mesmo de grandes desafios. Abriu o ano teatral enfrentando a difícil arquitetura do teatro Ópera de Arame, em Curitiba, com o espetáculo Fantasmas. Sua mais nova criação - realizada a convite e sob o patrocínio do Sesc São Paulo - não é empreitada menor. Rodrigo prepara-se para ocupar um palco líquido: a piscina do Sesc Consolação, em São Paulo.Mas desta vez o tempo de maturação do trabalho foi mais longo e História de Pescador, que estréia hoje para convidados, tem tudo para encantar adultos e crianças. O espetáculo é inspirado no romance O Velho e o Mar, de Ernest Hemingway, dirigido por Matheus com a sua Cia. do Circo Mínimo e tem como convidado especial, o ator Milhem Cortaz no papel central.No romance, um velho pescador está há 84 dias sem conseguir pescar. Sozinho em sua frágil embarcação, fisga ou "é fisgado" por um peixe muito grande, duas vezes maior que o seu barco, que o arrasta para mar adentro e com o qual trava uma árdua batalha. Depois de derrotar o peixe, tem de enfrentar uma longa viagem de volta à sua aldeia, onde chega com apenas a carcaça do peixe presa ao barco. A carne havia sido devorada por tubarões."O primeiro grande obstáculo a ser enfrentado é a acústica do espaço, que não permite contar uma história fundada sobre palavras", diz Rodrigo. "E esse homem solitário conversa com o peixe, filosofa com ele e nisso reside a riqueza dessa história", argumenta Cortaz. "Como traduzir sem palavras essa história grandiosa em sua simplicidade?", pergunta-se Matheus.A solução encontrada foi tentar reproduzir em imagens a grandiosidade do embate e, no trabalho do ator, a profundidade de sentimentos: solidão, cansaço, determinação. "Em nenhum momento tentei fingir uma idade que não tenho. Não interpreto um velho, mas simplesmente um pescador que há 84 dias não pesca um único peixe. E sai sozinho ao mar disposto a vencer a própria desesperança. O tempo e a espera são fatores importantes nessa história. E os mais difíceis de traduzir cenicamente", comenta Cortaz.Uma embarcação de verdade, com quase quatro metros de comprimento, e uma rede suspensa no ar de 30 m X 20 m são alguns dos elementos cênicos utilizados por Matheus para reproduzir a grandiosidade do embate entre homem e mar. Mas não é só. "Além da conexão ar e água - no auge do embate o peixe sai da água, ganha o espaço aéreo e a luta entre peixe e pescador vira combate corpo a corpo - tentei criar também uma conexão com os deuses, na tentativa de traduzir a transcendência dessa história", comenta Matheus. Um prólogo, ainda em terra firme, retrata a religiosidade na aldeia dos pescadores assistido pela figura de uma deusa, cuja imagem remete a Iemanjá. Deusa que vai seguir - invisível - o pescador e interferir - para o bem e para o mal - na pescaria. O espetáculo é estruturado em prólogo e quatro cenas: espera, embate com peixe, com os tubarões e retorno.Os oito atores fixos da Cia. Circo Mínimo utilizam técnicas circenses tanto para dar vida ao peixe, que tem forma abstrata e 5 metros de diâmetro, quanto aos tubarões. Estes são "encarnados" pelos atores que atacam o peixe pendurados em cordas elásticas numa macabra dança aérea.Matheus não integra o elenco de História de Pescador mas pode ser visto no monólogo Gravidade Zero, de Mário Bortolotto, no Teatro da Cultura Inglesa de Pinheiros, sextas, sábados e domingos.História de Pescador. Concepção, direção e roteiro Rodrigo Matheus. Duração: 1 hora. Sexta e sábado, às 20 horas; domingo, às 18 horas. R$ 4,00. Sesc Consolação. Rua Doutor Vila Nova, 245, em São Paulo, tel. (11) 234-3000. Até 5/8.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.