Heloisa Seixas e Ruy Castro: caminhos literários opostos

Ele é um escritor estritamente compromissado com histórias reais. Ela é uma escritora tipicamente ficcional, que gosta de contar uma boa história, que brota de sua mente cheia de idéias. Casados há 16 anos, Ruy Castro e Heloisa Seixas se enveredaram por caminhos literários opostos. Para contar um pouco dessas experiências, o casal foi o convidado de terça-feira da série Encontros na Vila, na Livraria da Vila, com a palestra Ficção e Não-Ficção: Limites.Sob os olhares curiosos de seus leitores, que ocuparam o pequeno auditório da livraria, Ruy e Heloisa esboçaram seus respectivos processos criativos, pontuando as diferenças que se configuram dentro desses dois universos.Autora de crônicas e contos, Heloisa é organizadora de uma coletânea de artigos sobre literatura publicados na década de 70, coordena uma série de livros de aventura e acaba de lançar seu primeiro livro infantil, Histórias de Bicho Feio. Ficou conhecida pela predileção pelos textos recheados de mistérios e terror. Já Ruy coleciona uma nada modesta lista de biografados, como Garrincha (em Estrela Solitária), Nelson Rodrigues (em Anjo Pornográfico), bossa nova (em Chega de Saudade) e, mais recentemente, de Carmen Miranda.Segundo Ruy, dizem que o trabalho de escritor é solitário. Não no caso dele. "Você pode chamar o trabalho do biógrafo de tudo, menos de solitário. Só para o livro da Carmen, devo ter aporrinhado umas 400 pessoas, para conseguir entrevistar de 180 a 200 pessoas", descreveu ele. "Não trabalho com equipe, mas convivo com uma equipe voluntária, que tem prazer em me ajudar", referindo-se aos seus entrevistados.Ruy não usa gravador: toda a apuração funciona na base das anotações. Mergulha de cabeça no universo de seu biografado e tem preocupação extremada pela exatidão dos fatos. Chega a checar determinada história com fontes diferentes e, se a versão o convencer, a reproduz, muitas vezes sem precisar citar suas fontes.Em contrapartida, quanto mais Heloisa liberar a imaginação melhor. "Todo o ficcionista é um pouco esquizofrênico", divertiu-se a escritora, que adora falar sozinha: faz isso desde criança. Sua relação com o ato de escrever sempre foi fantasiosa. "Contar histórias mentalmente para mim sempre foi fundamental. A sensação é de que estou escrevendo a história há tempos." Mas ao contrário de Ruy, que gosta que ela acompanhe todo o processo de seu livro, Heloisa prefere o trabalho solitário, sem a interferência do companheiro, que só tem acesso à sua obra já pronta. Quanto aos limites entre ficção e não-ficção, Heloisa afirmou que muitos ficcionistas se apropriam de personagens da realidade. "Na ficção, o jogo de cruzar essas fronteiras é interessante, mas pode ser perigoso."

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