Helmut Newton terá retrospectiva em Berlim

O fotógrafo alemão Helmut Newton, morto no sábado em um acidente de carro em Los Angeles aos 83 anos, vai ser homenageado em sua Berlim natal com uma exposição retrospectiva. Marcada para começar no dia 3 de junho, a mostra acontecerá perto de um local que foi determinante na vida de Newton: a Biblioteca de Arte de Berlim, que fica próxima à estação ferroviária do Zoológico, de onde o fotógrafo partiu, em 1938, fugindo da perseguição nazista, com 18 anos. Berlim também será o local do enterro do fotógrafo. Sua mãe pagou uma boa soma de dinheiro para embarcá-lo num navio que partia para o Oriente. O fotógrafo nunca mais viu seu pai, um judeu fabricante de botões, morto pelos nazistas. Newton foi parar em Cingapura e, depois, tornou-se cidadão australiano. Apesar da tragédia do nazismo, jamais renegou a Alemanha como sua terra. Num gesto generoso de reconciliação, cedeu sua coleção e bancou a reforma da Biblioteca de Arte, onde a retrospectiva vai mostrar mil fotos suas. Helmut Newton foi o mais famoso fotógrafo de moda do século, não exatamente por vestir, mas por tirar as roupas de suas modelos. Personagem polêmico do mundo fashion, foi detestado por feministas como Alice Schwartzer, que o criticou como "sexista, racista e fascistóide" pelo uso do corpo feminino como objeto de consumo voyeurista. Sendo a imagem arquetípica de Newton a da mulher reduzida a uma estátua, não é uma crítica totalmente injusta. Ele queria mesmo chocar quando fotografou em Paris, há quase 30 anos, uma modelo de Yves Saint-Laurent de salto alto, portando apenas a parte superior de um tailleur. Da mesma forma, não se pode classificar de ingênuas suas cenas forjadas de sadomasoquismo, com mulheres algemadas ou exibindo coleiras de cachorro. Ou, em doses mais explícitas, os nus publicados em revistas como Playboy, que lhe renderam a fama de "porno chic". Na (fraca) autobiografia lançada no ano passado pela Doubleday (Helmut Newton ? Autobiography, 289 págs., US$ 27,95), Newton relata - sem censura - que começou a vida explorando uma mulher em Cingapura. Nessa balada de dependência sexual, a voraz matrona instalou-o numa casa e, quando a guerra chegou ao Oriente, ele partiu para a Austrália. Terminado o conflito, trocou o sobrenome Neustaedler por Newton, começando sua carreira de fotógrafo. Na Austrália conheceu sua mulher June Brunell, também fotógrafa. Com ela viveu 57 anos, o que não traduz absolutamente uma união harmoniosa. Egocêntrico, quando sofreu um ataque cardíaco, seu médico se aproximou e, apontando para sua mulher, disse: "Aqui está seu bem mais precioso." Newton riu e replicou: "Ha, ha, sou eu o meu bem mais precioso." Newton ganhava 20 mil libras por dia de trabalho (mais despesas). A fortuna de Newton justifica-se. Foi um profissional que revolucionou o conceito de fotografia de moda. Em cenários decadentes, trabalhou a luz como se estivesse num filme de Stroheim, acentuando os contrastes entre um mundo de luz e sombras, de onde emergiam figuras seminuas. Essa combinação entre roupas exclusivas e corpos despidos chegou ao paroxismo nos anos 80, numa série feita para a Vogue francesa, em que as modelos apareciam vestidas e depois despidas, na mesma posição. Já os retratos de celebridades dispensam a luz artificial e são realistas como as pinturas de Lucian Freud. Newton preferia estar entre os plebeus, assumindo as prostitutas parisienses como fonte de inspiração. "Elas têm um vocação inata para a moda", conclui na autobiografia.

Agencia Estado,

28 de janeiro de 2004 | 17h47

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