Hélio Eichbauer retorna ao teatro lírico com 'Pelléas et Mélisande'

Cenógrafo monta ópera que estreia neste sábado, 14, no Teatro Municipal de São Paulo

JOÃO LUIZ SAMPAIO - O Estado de S.Paulo,

14 de setembro de 2012 | 03h01

(Projeções: influência de Monet e da arte japonesa. Foto: Evelson Freitas/AE)

"O meu ideal é associar sonhos", escreveu Claude Debussy ao amigo Ernest Guiraud, em 1890. "Não penso em uma época, não imagino um lugar. Não há grandes cenas." O compositor referia-se a seu ideal de ópera, que começou a ganhar vida quando assistiu à peça Pelléas et Mélisande, de Maeterlinck (representante do Simbolismo, do desejo de narrar uma história a partir do universo inconsciente, por meio de sugestões), e decidiu adaptá-la.

Na recriação de Debussy, a paisagem é, assim, interna - e se há um ambiente em que se passa a história, é a mente dos personagens, envolvidos em um misterioso triângulo amoroso. Como retratar esse universo sobre o palco? Como dar forma a ele? Na montagem da ópera que estreia amanhã no Teatro Municipal, a tarefa coube ao experiente cenógrafo Hélio Eichbauer, que tem em seu currículo trabalhos que se misturam à história do teatro brasileiro - caso da montagem de O Rei da Vela, de Oswald de Andrade, em 1967, no Teatro Oficina.

A produção se deu após uma temporada em que Eichbauer viveu em Praga, onde estudou com o mestre Joseph Svoboda, conhecido pela recusa do naturalismo na formatação dos cenários e pela aposta em um universo cênico feito de símbolos. Nesse sentido, o trabalho em Pelléas et Mélisande - e os desafios impostos pela obra -, dialoga com a própria formação do cenógrafo. Mas as relações possíveis vão além do contato com Svoboda - e recuperam momentos pessoais de sua trajetória.

"Essa música me leva de volta à adolescência", diz ele. "Debussy e Ravel são autores que me cativaram desde muito cedo, pelo próprio envolvimento com o simbolismo, mas também pelo passo em direção à modernidade, que é tão claro em Debussy." Na adolescência, vivendo em Nova York, ele lembra que sua família era bastante próxima da soprano Bidu Sayão. "Ela foi uma grande intérprete da Mélisande, a maior que o Brasil teve. Na verdade, ela fazia Debussy muito bem. Lembro de ter ido à sua despedida, no Carnegie Hall, quando ela cantou La Damoiselle Élue."

A ópera sempre esteve presente na trajetória de Eichbauer. Ele diz que, de alguma forma, sempre gostou mais da música do que do teatro de prosa. E se lembra da primeira ópera que dirigiu, no início dos anos 70, no próprio Municipal de São Paulo. "Era um Pagliacci, do Leoncavallo, com o maestro Diogo Pacheco e direção do Celso Nunes. Nós tiramos a ação do século 19 e a colocamos nos arredores de uma cidade qualquer do interior paulista, levando a história para os anos 70. Foi um escândalo", ele lembra, divertindo-se. Viriam, então, dezenas de produções de um repertório bastante variado. No Municipal do Rio, estreou com Orfeu e Eurídice, de Gluck - e confessa que adoraria trabalhar em montagens de outras obras do compositor. Nos últimos anos, assinou a cenografia, em São Paulo, de Sansão e Dalila, de Saint-Säens, e, no Rio, de Macbeth, de Verdi, em uma produção dirigida por Sérgio Britto.

"Eu gosto muito do trabalho em ópera. Primeiro, por conta do espaço do palco dos grandes teatros. E, claro, pelo meu passado, pelos anos vividos em Praga, por todo o período em que me formei como artista. E pela fascinação que a música exerce sobre mim, pela possibilidade de dialogar com ela." Ao ser convidado pelo diretor cênico Iacov Hillel para participar desse novo trabalho, Eichbauer conta que a primeira preocupação foi justamente fazer justiça à partitura de Debussy - e a algumas das influências que se materializavam em seu trabalho. "Meu objetivo, em diálogo com a proposta do Iacov, foi criar uma linguagem minimalista, mais abstrata, entre o simbolismo e o impressionismo", explica. "E, nesse sentido, me dei conta da importância que a arte japonesa tinha para Debussy. Na partitura de La Mer, por exemplo, ele reproduz uma onda do artista Katsushika Hokusai. Então, tive em mente durante o processo criativo o espaço simples e especial da pintura e da gravura japonesas."

Da mesma forma, diz o cenógrafo, o compositor gostava do trabalho de Claude Monet, "o pintor impressionista por definição", de sua observação da natureza - e o modo como essas sensações se traduziam em quadros. "No centro do palco, temos um grande círculo de madeira, acústico, e vamos trabalhar com projeções de detalhes de pinturas de Monet. Mas, e isso é muito importante: não são quadros completos mas, sim, fragmentos, nada figurativo. Pensamos essencialmente na articulação entre luz e cor que, de certa forma, nos parece ser a questão musical proposta por Debussy."

Os personagens, assim, se projetam sobre o vazio do palco. E Eichbauer celebra, mais uma vez, o poder da música associado ao teatro, "em especial quando se trabalha com cantores tão inteligentes como o tenor Fernando Portari, a soprano Rosana Lamosa e todo o elenco desta produção". "No fundo, quando a gente ouve a ópera do Debussy tem a sensação de que o que ele propõe é transformar a música em pintura - e a pintura, em música." É apenas uma impressão, diz Eichbauer. Mas o suficiente para construir todo um universo de sonhos sobre o palco.

PELLÉAS ET MÉLISANDE

Teatro Municipal. Praça Ramos de Azevedo, s/nº, 3397-0327.

Sáb. (15), 2ª (17), 4ª (19) e 6ª (21), 20 h; dom. (23), 17 h. R$ 40/ R$ 100.

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