Heleno lorde e guerreiro

O longa com Rodrigo Santoro suprime o jogador genial para privilegiar o craque-problema

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

30 de março de 2012 | 03h11

José Henrique Fonseca admite que, em vários momentos, chegou a se perguntar - "Por que estou fazendo este filme? Por que não desisto?" O espectador, mesmo admirando a beleza da fotografia em preto e branco e o cuidado cenográfico, a excelência da interpretação (de Rodrigo Santoro), talvez faça uma pergunta semelhante diante de Heleno - por que estou vendo este filme? Porque Heleno, que parecia um grande personagem, não se caracteriza como tal na estreia de hoje. A comparação possível talvez seja Touro Indomável, de Martin Scorsese, sobre o pugilista Jake La Motta. Outro filme sobre esporte, o boxe no lugar do futebol. Outro personagem que não é simpático, que não incita à empatia.

Touro Indomável foi uma das referências assumidas de Rodrigo Santoro e cabe responder logo à pergunta inicial. O entusiasmo de Rodrigo pelo projeto - e pelo personagem - era tão grande que contaminava o diretor. E Fonseca, com uma franqueza até mesmo surpreendente, revela. "Sou bipolar, sujeito a mudanças de comportamento que criam dificuldades para as pessoas que me cercam e para mim. O caso do Heleno era especial, mas eu queria entender o problema dele, as oscilações dele, até como forma de administrar as minhas."

Há um mito Heleno de Freitas. Sobreviveu à morte do atleta, em 1959, há mais de meio século. Heleno foi o primeiro craque-problema do futebol brasileiro. Rico, belo, intratável, ganhou o apelido de 'Gilda', atribuído por seus amigos do Clube dos Cafajestes e pela torcida do Fluminense, que não poupava o astro do rival Botafogo. Gilda era a personagem de Rita Hayworth num filme cult de Charles Vidor, de 1946. A alcunha caiu como luva em Heleno. Ele disse certa vez que era um guerreiro no campo e um lorde fora dele. Acrescentou que seria muito complicado, se fosse diferente. Mas o que o filme mostra é muitas vezes o oposto - ao não apresentar o Heleno guerreiro, ao suprimir suas jogadas geniais (ele matava a bola no peito, virava o corpo, cabeceava e fazia gol), se ele não é um lorde no gramado (numa cena a expressão é de perplexidade), ele com certeza sabia ser bandido com suas mulheres, até agredindo-as.

"O Heleno foi um enigma para o seu tempo porque era viciado em éter e sifilítico. Chegou a ser tratado com choques elétricos. Assim como não queria mostrar o jogador, também não me interessava essa coisa sensacionalista de ficar apresentando o tratamento selvagem", explica o diretor. A decisão de não mostrar suas jogadas geniais fazia parte do conceito de Fonseca. Foi assimilada por Santoro, mesmo que o ator tenha se preparado (com Cláudio Adão) para jogar, e bem. "Consegui fazer um golaço que gostaria muito que estivesse no filme, mas o Zé Henrique cortou. O que ele me prometeu é que esse material de campo estará nos extras do DVD, quando for lançado", diz o ator.

O que se vê do futebol, além da fama, são os bastidores dos clubes, a cartolagem. O filme não é lisonjeiro com ninguém, e muito menos com o personagem. Mas tudo o que envolve a figura de Heleno está documentado e é real. "O que não havia era registro de voz do Heleno, de sua imagem em movimento. Tudo o que encontramos foram fotos, muitas fotos, e matérias de jornais dando conta de seu temperamento. Mais que o jogador, me interessou esse personagem de tragédia grega, que ele carregava até no nome." Em contraposição, a personagem da mulher, interpretada por Alinne Moraes, é quase toda fictícia. Foi criada em função da curva dramatúrgica do herói, e de tal forma que Fonseca lhe deu outro nome.

Gostar ou não de Heleno será uma opção individual do espectador, mas há o que é inequívoco - o cuidado de produção. Na época de Heleno, o rádio criava os mitos do Brasil e o futebol se encaminhava para ser a paixão nacional. De 0lho na Copa do Mundo, foi criado o estádio do Maracanã. O cinema brasileiro não tem uma grande tradição de filme de época, mas este é um desafio que Heleno, o filme, tira de letra. O diretor não poupa elogios a seu fotógrafo, o também diretor Walter Carvalho.

E acrescenta: "A arquitetura do Rio se deteriorou muito nas últimas décadas. Hoje se observa em toda parte um gosto muito duvidoso, e universal, pelo pós-moderno. Mas o Rio foi a capital do Império e, depois, da República. Sobraram vestígios daquela arquitetura neoclássica, eclética. Nosso desafio, de toda a equipe, foi evitar os clichês e inserir o drama numa cidade reconstituída pelo departamento de arte. Houve uma locação de São Cristóvão que montou muito bem com outra de Copacabana. Cinema se faz assim, um pedaço aqui, outro ali. O importante é juntar as partes."

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