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'Heleno era apaixonado pela vida. Não suportava a mediocridade'

Rodrigo Santoro fala sobre seu mais novo papel - o craque problema dos anos 40 - e a carreira internacional

MARILIA NEUSTEIN, O Estado de S.Paulo

12 de março de 2012 | 03h06

Heleno, longa-metragem sobre a vida de Heleno de Freitas, tem sido "o" assunto de Rodrigo Santoro nos últimos anos. Além do desafio de interpretar o polêmico craque dos anos 40, o ator ficou tão envolvido com o projeto que se arriscou pela primeira vez no papel de produtor. "Foi algo natural. Quando percebi, já estava dando opinião no roteiro, em questões artísticas", contou, entusiasmado, em conversa por telefone com a coluna.

Até receber o convite do amigo e diretor José Henrique Fonseca, Santoro não conhecia muito sobre Heleno: "Só que tinha sido um grande jogador". Entretanto, na medida em que foi se envolvendo com a pesquisa, acabou por descobrir um dos personagens de personalidade mais "complexa e plural" de sua carreira. "Era um apaixonado pela vida, um cara que não suportava a mediocridade", relata.

Vascaíno e fã de futebol, Santoro entrou de cabeça no processo de preparação do personagem. Além de perder peso e fazer aulas de dança para ganhar elegância na postura, recrutou o ex-jogador Cláudio Adão para treinar a marca registrada de Heleno, a matada no peito. Melhorou? "Olha, posso te falar que desenvolvi muito meu futebol ", diverte-se.

Apesar de conhecido por mergulhar nos personagens, Santoro prefere não exacerbar essa característica: "Senão fica aquele estereótipo, 'do cara que se dedica', sabe?". Entretanto, confessa que é também nesse aspecto que se identifica com o personagem - no compromisso com aquilo que está fazendo: "No caso dele, era a paixão pelo futebol. Claro, o Heleno era um radical. Eu não. Mas acredito que devemos tentar nos superar sempre", afirma.

O ator, que também lança longa ao lado de Jennifer Lopez (O Que Esperar Quando Você Está Esperando), aproveitou para falar também sobre a experiência - loas e dificuldades - de trabalhar fora do Brasil. E concluiu: "No fim das contas, são filmes sobre o ser humano. E ficamos tristes pelas mesmas razões, aqui ou na Bósnia".

Abaixo, trechos da conversa.

 

Como o projeto de Heleno chegou até você? Já conhecia algo da vida dele?

O Zé (Henrique Fonseca, diretor do filme), que é um grande amigo, trouxe o projeto com bastante entusiasmo. Eu já tinha ouvido falar sobre o Heleno de Freitas, mas não sabia nada a respeito da sua história - só que havia sido um grande jogador. Acabei me encantando conforme fui conhecendo e também me animei com a possibilidade de fazer um filme no Rio dos anos 40.

Ele era uma figura polêmica, não? Dividia opiniões, nem sempre agradava...

O Heleno é uma espécie de figura mitológica. Há muitas histórias. Sempre engraçadas ou que chegam a ser absurdas. Era uma figura muito polêmica, que, sem dúvida, deixou um rastro bem marcado.

A preparação necessária para um personagem verídico é mais desafiadora?

Nem mais nem menos. É diferente. Nesse caso, foi muito interessante. O material de base foram muitas fotografias. Não tinha nenhum material filmado, até pela época... Então, foram basicamente fotos, literatura biográfica e tudo que eu pude encontrar pesquisando. Daí fizemos uma rodada de entrevistas com pessoas que o conheceram de alguma forma. Amigos remanescentes, família. Admiradores ou não.

Você fez aulas de futebol, de dança, perdeu peso...

Tive de fazer uma preparação física e técnica. O Heleno era um craque e, como há cenas em que eu jogo futebol, precisei me preparar bem. Para tanto, tive a sorte de contar com o Cláudio Adão. Cheguei a ele muito pelas características do próprio Heleno, que, além de jogador completo, tinha duas grandes marcas: a matada no peito e a cabeçada.

E a elegância.

Claro! Daí veio a ideia de fazer um pouco de aula de dança, para trazer isso para o corpo. Por exemplo, o Gabriel García Márquez - que era grande fã de Heleno de Freitas - dizia que, dentre ouras coisas, ele era o "Nijinsky do futebol". E se você olhar as fotos do Heleno em campo, são muito plásticas mesmo, parece um balé.

Você é conhecido como um ator que se envolve muito com seus projetos. Já afirmou, inclusive, que não tem medo da intimidade com o personagem. Como é isso?

Fico com receio de falar assim, porque acaba virando um estereótipo. Do "cara que se dedica", "o cara que se envolve muito"... Na verdade, não sei fazer de outra forma. A pesquisa, para mim, é muito importante. Desfruto do processo, e meu envolvimento vem daí. É onde me identifico com o Heleno: no compromisso com aquilo que se está fazendo. No caso dele, era a paixão pelo futebol. Claro, o Heleno era um radical. Eu não. Mas acredito que devemos tentar nos superar sempre.

Você gosta de futebol? Joga sempre?

É claro! Mas assim... não sou um craque, né? Para encarnar o Heleno era importante treinar muito. Porque uma coisa é jogar pelada, outra é aprofundar seus fundamentos de futebol, que foi o que eu tentei fazer.

Hoje em dia você mata no peito, com classe, nos seus jogos?

Posso te dizer que melhorei bem (risos). Desenvolvi muito o meu futebol. Treino é importante para todo mundo - apesar de o Heleno não achar tão importante assim...

De onde você acredita que vinha essa característica polêmica dele? Do carisma?

Naquele tempo, futebol era diferente dos dias de hoje. Não era bacana ser jogador. E acho que ele compreendia, já naquela época, a relação com a plateia. Ele poderia ter se tornado político, por exemplo. Porque sabia se relacionar com a massa. Quando ele terminava um jogo sem ser expulso, dava um show... era um cara apaixonado pela vida, queria mais, se superar. E não suportava a mediocridade.

Você afirmou que ele era um super-homem de Nietzsche.

Pronto. Pode-se dizer que o Nietzsche fala disso. De um processo contínuo de superação. Acho, sim, que dá para fazer uma analogia.

O jogador de futebol é quase um arquétipo da cultura brasileira. São idolatrados e, ao mesmo tempo, hostilizados. Quem você acha que seria o Heleno de Freitas dos dias atuais?

Acho que o Heleno era muito particular. Apesar de ter uma estrutura dramática nessa trajetória meteórica clássica dos gênios... Tinha uma personalidade bem complexa.

Mas o Ronaldo, por exemplo, também é considerado um herói e causa muita comoção por onde passa. Sua trajetória é feita de muita superação.

Acho que essa reação vem do papel que o futebol ocupa na vida dos brasileiros. É mais do que uma questão cultural. É como se estivesse no nosso DNA. Fica difícil de racionalizar. Somos completamente apaixonados por esse esporte.

Você é otimista com relação à Copa do Mundo no Brasil?

Sempre sou (risos). Quero dizer, no caso de futebol. No que diz respeito à nossa seleção, principalmente. Quero que tudo dê certo, que a gente ganhe. Porque jogamos futebol durante o ano inteiro, não é? Tem muitos campeonatos. Temos de ganhar esse negócio aí, oras (risos).

Quais são os novos craques?

Pergunta difícil, tem tanta gente. Daí vou falar do meu time, vão dizer que eu estou puxando a brasa para a minha sardinha (risos). Deixa pra lá.

O Heleno foi sua primeira experiência como produtor?

Foi. E muito natural. Um movimento orgânico. Quando vi, estava bastante envolvido, falando do roteiro, de toda a questão artística. E aconteceu. Foi difícil, uma experiência bem intensa. Aprendi muito. Passei a respeitar mais o trabalho do produtor. É um quebra-cabeça, a produção tem de solucionar muitos problemas.

Você é um dos poucos atores brasileiros que conseguem participar de filmes internacionais. Acha que o cinema brasileiro está mais conhecido lá fora?

Acho que sim. É um movimento crescente.

E por que acha que Tropa de Elite 2 ficou fora da seleção do Oscar 2012?

Foi uma pena, mas os critérios do Oscar... vai entender. Tem uma série de coisas em jogo. É muito difícil. Mas, definitivamente, não é isso que qualifica ou desqualifica um filme.

Como você enxerga sua carreira internacional? Quais as principais dificuldades?

A primeira barreira é a cultura. É uma outra língua, outra forma de se expressar. E cinema é expressão. Então, há que se adaptar a isso. Essa é a grande diferença. Mas, sabe, assisti esses dias ao filme A Separação e estou chocado até hoje. O filme é de uma cultura completamente diferente, mas é sobre o ser humano. É assim que enxergo a oportunidade de trabalhar fora. Tenho de vencer o obstáculo da língua, ser estrangeiro nesse meio, encontrar bons personagens... mas, no cerne da questão, está o ser humano. E isso é igual no mundo inteiro. Ficamos tristes pela mesma razão. Aqui ou na Bósnia. Por isso a gente se identifica.

E como foi trabalhar com a Jennifer Lopez?

Ela é ótima. Tem um talento nato para a comédia, além de ser superprofissional. Eu me diverti muito, principalmente porque não fiz muitas comédias na minha carreira, então foi um ótimo exercício. Ainda mais porque contracenei com Cris Rock e outros comediantes que ficaram improvisando. Foi um show.

Não pensa em voltar aos palcos, fazer algo no teatro?

Eu penso muito na hora de voltar. Mas vou ter de parar para ter essa experiência. Não consigo fazer desse jeito express: ensaiar dois meses, ficar em cartaz dois meses e depois acabou. Eu imagino a experiência do teatro, uma exploração mesmo. É uma forma de idealizar, mas é o mais interessante para mim. Fazer, fazer, fazer. Tem gente que fala que é a mesma coisa que cinema. Eu discordo completamente. Tenho de planejar mesmo.

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