José Patrício/AE
José Patrício/AE

Helena e seus dois maridos

Atriz foi casada com Glauber Rocha e Rogério Sganzerla e lança 'Luz nas Trevas' em 11 de maio

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

29 de abril de 2012 | 03h06

Nas paredes da produtora Mercúrio, localizada num prédio da Rua Nestor Pestana, no centro de São Paulo, as fotos não deixam mentir. A jovem Helena Ignez foi um assombro. Em cenas de filmes ou em poses com o segundo marido, Rogério Sganzerla, Helena é deslumbrante. E não é só o corpo, bem proporcionado, do tipo mignon. É a luminosidade do sorriso, a loirice que faz dela um anjo sapeca. Agora, com mais de 70 anos e o rosto marcado pelas intervenções, Helena olha para si mesma sem nostalgia: "Sou filha de Brecht", explica, e isso diz tudo.

A jovem Helena, que foi Glamour Girl em Salvador e segunda colocada no concurso de Miss Bahia, pode ter sido, e foi, uma linda mulher, mas já naquela época se interessava mais por coisas profundas do que pela exterioridade da imagem. Brecht e o distanciamento. No começo dos anos 1960, Helena já pensava no cinema de autor e escreveu um roteiro, sobre a relação de duas mulheres. Não chegou a filmá-lo, mas parte do que colocara no papel foi parar no clássico Deus e o Diabo na Terra do Sol, de seu primeiro marido, Glauber Rocha - as cenas de Rosa e Dadá.

Aproveitando a estreia, dia 11, de Luz nas Trevas - o longa com roteiro de Sganzerla e que dá sequência ao cultuado O Bandido da Luz Vermelha, de 1968 -, o encontro na sede da Mercúrio é para falar do filme e traçar um perfil de Helena Ignez a partir dos dois homens com quem se casou. Dona Helena e seus dois maridos. Simplesmente, o guru do Cinema Novo (Glauber) e o grande nome do cinema de invenção e marginal do País (Sganzerla). O barroquismo e a explosão baiana do primeiro e a concentração exacerbada do catarinense de Joaçaba.

Foi a primeira coisa a que Helena teve de se acostumar, ao se unir a Sganzerla. Aos seus silêncios. Ele era meditativo, capaz de ficar horas trabalhando, sem lhe dirigir a palavra. "Eu, às vezes, penso que ele gostava mais de nossas filhas (a compositora Sinai e a atriz Djin) que de mim", ela diz, mesmo sabendo não ser verdade. Rogério, com frequência, só interrompia o movimento interior para brincar com as meninas. Era quem as levava ao colégio. "Sinai disse na escola: minha mãe maneja a espada, meu pai rega as plantas."

A espada fazia parte dos exercícios de tai chi chuan de Helena. Ela aderiu à prática há muitos anos. "É uma disciplina da defesa. Explora a força do inimigo contra ele. Se o golpe vem, você o evita, e devolve." Credita à prática sua excelente saúde. O corpo está rijo, a mente a mil. Filmar o roteiro que Sganzerla deixou inacabado - o final -, era um desafio e um tributo ao companheiro de 35 anos, o homem a quem mais amou e que morreu em 2004. Para viabilizar o projeto difícil, ela aceitou uma codireção (com Ícaro Martins) que resultou em disputa no tribunal. O caso foi resolvido, o que é de Ícaro é de Ícaro, mas não a autoria. Luz nas Trevas é puro Sganzerla, mas também tem tudo a ver com Baal, longa que Helena fez bebendo na fonte de seu mestre Bertolt.

Ela admite que era jovem demais quando se casou com Glauber. "Talvez a gente não devesse ter-se casado, apenas ter nos amado." Fizeram um curta, Páteo, importante na deflagração do novo cinema baiano por volta de 1960. Tiveram uma filha, Paloma. "Glauber era gênio, mas era garoto mimado, machista." Em seu livro, Primavera do Dragão (Objetiva), Nelson Motta conta que Glauber apoiou Helena quando foi indicada pelos colegas da Faculdade de Direito de Salvador para concorrer a Miss Bahia. Ele devia pensar que a vitória da garota intelectualizada seria uma bofetada na cara da oligarquia soteropolitana, pois chegou a cabalar votos. Mas não fazia segredo de que, se ela ganhasse, como seu homem a impediria de ir ao Rio para o Miss Brasil.

Quando o casamento acabou e Helena quis se separar, ele foi duro. "Já era atriz, e a profissão era malvista. Glauber foi à Justiça, conseguiu a guarda de Paloma." Ela ama a filha, existe respeito entre elas. Mas admite, porém, que o fato de ter gravitado em torno de Paloma, na infância, sem a haver criado, marcou a relação das duas. Em 1966, como atriz, Helena Ignez fez O Padre e a Moça, de Joaquim Pedro de Andrade, baseado no "negro amor de rendas brancas" do poema de Drummond. O filme foi a Berlim, ela ganhou uma menção de atriz. Sganzerla, que ia fazer O Bandido da Luz Vermelha, chamou-a para o elenco. "Eu queria ir a Cuba com o filme, e disse que só fazia na volta. Ele começou a filmar com os demais atores, deixou minhas cenas para depois. Quando cheguei ao set, aconteceu. De cara."

Foi paixão à primeira vista. "Durou 35 anos, todo o tempo em que vivemos juntos." Até hoje, ela não consegue falar do ex-marido sem transmitir essa paixão. Mas fala com calma, não é derramada nem melodramática. Até aí consegue ser brechtiana. "Havia companheirismo, admiração mútua. Nos completávamos." Atravessaram momentos difíceis, tiveram de se exilar. Não havia ciúme, ou rivalidade, entre eles? Rogério era gênio, como Glauber. "Apesar das diferenças estéticas entre eles, e dos ressentimentos da nossa separação, Rogério nunca estimulou nenhum rancor contra Glauber. Não era meu ex-marido. Era o artista." O que Helena aprendeu com os homens de sua vida, e com "o" homem, Sganzerla? "Glauber tinha o ímpeto, Rogério... Qual é a palavra? Não é serenidade, porque ele também era consumido pela criação. Acho que, com Rogério, vivi a fidelidade plena. À nossa relação, às ideias." Conscientemente ou não, Helena associa Sganzerla à luz. O farol de sua vida. Com - claro - Brecht.

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