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Heil Trump

No dia seguinte ao massacre de Orlando, o jornalista Michael Weiss tuitou: “Fui alvo de mais abuso de seguidores de Trump em 72 horas do que de seguidores do Estado Islâmico em três anos”.

Lúcia Guimarães, O Estado de S. Paulo

20 de junho de 2016 | 02h00

O jornalista em questão é conhecido por ser coautor de um best-seller sobre o Estado Islâmico. Retuitei seu comentário e mais de três minutos não devem ter se passado até me tornar alvo de trolls seguidores de um certo saudosista da ditadura militar com assento no Congresso Nacional.

Notem que uso o termo seguidor e não eleitor porque atravessamos para o território do culto. Weiss atraía os membros da seita trumpânica por seu sobrenome judaico. Ele tem companhia numerosa. Perguntem a Julia Ioffe. No final de abril, a jornalista russo-americana foi vítima de uma torrente de abuso antissemita por ter escrito uma reportagem sobre Melania Trump para a revista GQ. A repórter viajou à Eslovênia natal da ex-modelo Melania e – surpresa! – apurou que ela havia coberto sua biografia com uma camada de tinta dourada semelhante à que cobre seus aposentos na cobertura da Quinta Avenida. A caixa de e-mail de Ioffe e suas contas de rede social foram inundadas por mensagens gráficas, como a que trazia seu rosto inserido no corpo de um prisioneiro de campo de concentração.

Nos últimos meses, jornalistas com sobrenomes judaicos têm relatado tratamento similar, vindo de simpatizantes da Ku Klux Klan e de outros que defendem a supremacia branca e a candidatura Trump. Uma extensão no browser do Google Chrome passou a localizar nomes judaicos e os identificar entre três parêntesis, por exemplo (((Weiss))), para facilitar a caça. Em protesto, judeus norte-americanos começaram a se identificar entre três parênteses em contas no Twitter. O Chrome suspendeu o software.

A escalada de agressão culminou com um tuíte do subeditor do escritório do New York Times em Washington, Jonathan Weisman: “Vou deixar o Twitter para os racistas, os antissemitas e os Bernie Bros que atacaram mulheres ontem. Quem sabe, o Twitter vai pensar melhor”. Bernie Bros são violentos seguidores de Bernie Sanders que, entre outras atividades, usam a rede social para atacar eleitores de Hillary Clinton. Mas nada se compara ao apoio de racistas e antissemitas a Donald Trump. A referência ao Twitter foi explicada num artigo de Weisman no New York Times. Ele decidiu ir se refugiar entre elogios da família, fotos de comida e de bichinhos no Facebook depois de ler a reação oficial do Twitter à sua detalhada queixa sobre a barbaridade dos insultos. A iconografia não varia muito, como Weisman teve oportunidade de descobrir entre colegas. Há o Trump de uniforme nazista ligando um forno onde foi inserido o rosto do jornalista. Ou a trilha de notas de US$ 20 que leva a um forno – “Assim se captura um judeu”. 

O Twitter é uma empresa privada com Termos de Serviço que deixam clara a proibição de ameaças, discriminação por raça, sexo, religião. Ao receber a resposta à sua queixa – “Não vimos violação das regras” –, Weisman deu um basta. O que, diante da publicidade negativa, provocou a suspensão de algumas contas, mas não outras. A agressividade anônima de ovos avatares no Twitter é conhecida por quem tem leitores ou audiência eletrônica.

Se o Twitter, no desespero para aumentar a quantidade de membros, vai repensar ou não seu filtro de abuso, a questão mais importante está na assustadoramente singela resposta de Melania Trump quando perguntaram sobre as ameaças de morte à autora de seu perfil na revista GQ: “Ela estava pedindo”. É esse o casal Orwelliano que pode se mudar para a Casa Branca. 

E não há método na loucura. A filha de Trump, Ivanka, se converteu ao judaísmo para se casar, os netos do bilionários são judeus. Membros da direita israelense preferem fechar os olhos às caricaturas de fornos e campos de concentração e decretar que Trump é melhor para Israel. Por que Trump não denuncia o apoio oficial que a sua candidatura recebeu da Ku Klux Klan e o comportamento assustador de seus seguidores racistas? Não foi por falta de chance, é claro. Confrontado com as ameaças a Julia Ioffe, ele se recusou a condená-las. Calou e consentiu.

Matt Katz, um repórter político judeu, conseguiu conversar com alguns de seus detratores. Compreendeu que eles veem na linguagem de Trump um canto de sereia, palavras de ordem como acabar com o politicamente correto, expulsar imigrantes, tornar o país mais branco. Adoram o fato de que ele elogia Vladimir Putin. A Rússia de Putin é universalmente admirada por racistas norte-americanos e europeus.

Vale lembrar que Donald Trump recebeu os votos de menos de dez por cento do eleitorado e opiniões negativas sobre ele aumentam nas pesquisas. Mas a complacência com o extremismo fascista, seja na rede social ou no Partido Republicano, é a herança maldita desta nefasta campanha presidencial.

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