Aline Arruda/Divulgação
Aline Arruda/Divulgação

Hector Babenco fala sobre as batalhas de sua nova produção

Diretor argentino-brasileiro está em Moscou para presidir o júri do Festival Internacional de Cinema

MARINA DARMAROS - ESPECIAL PARA O 'ESTADO',

28 de junho de 2012 | 03h10

MOSCOU - "Uma estranha sensação de estar em um filme de ficção, uma coisa kafkaniana." É assim que o cineasta Hector Babenco, em entrevista exclusiva ao Estado, diz que se sente em Moscou, cidade na qual está para presidir, até sábado, o Festival Internacional de Cinema. No encontro, o diretor argentino-brasileiro de 66 anos também falou de projetos, como o polêmico Tiger Tiger, e de começar a rodar Cidade Maravilhosa no ano que vem, no Brasil.

Nesta 34.ª edição do festival, a produção latino-americana tem vez na mostra fora de competição Anima Latina, que traz Histórias Que Só Existem Quando Lembradas, de Júlia Murat (produção Brasil/França/Argentina), Violeta Foi para o Céu, de Andrés Wood (Brasil/Chile/Argentina), além de filmes de Cuba e do México.

Como é a sua relação com festivais internacionais?

Esses eventos são a chance de ver filmes que não vão chegar ao mercado comercial no Brasil. Mas em Cannes não se consegue nem andar na rua quanto mais ir ao cinema. E também há muito burburinho, um clima de "somos todos parte de um grande grupo de pessoas escolhidas que se conhecem e se amam muito". É uma espécie de síndrome do tapete vermelho que se estende à alma das pessoas.

O que este festival trouxe de novidade?

É uma boa oportunidade de conhecer a produção do Leste Europeu. Jamais teria a chance de ver os filmes que estão aqui. Eles me ajudam a entender melhor como pensa um finlandês, ou como um lituano retrata sua realidade, ou ainda como os russos mantêm viva uma tradição épica à la Sergei Bondarchuk. Aqui já vi um filme totalmente Bondarchuk e outro totalmente sub-Tarkovski.

O que acha dos filmes russos.

Pelo pouco que vi, não há uma entrega sincera da alma dos personagens. Não há nada sobre o qual diga "compreendi neste filme a transformação que a Rússia está vivendo, mas sem ainda terem abandonado um modelo vigilante de comportamento na sociedade". Aqui, é tudo muito brutal. Ninguém vai roubar a sua carteira, mas há um outro tipo de agressividade no comportamento diário, principalmente dos homens. Nos primeiros dias, fiquei irritado com isso. Agora, sinto que estou dentro de um filme de ficção e tento me divertir.

Como se sente em relação à língua?

É uma coisa meio kafkiana. Não falar a língua local é algo que já tinha sentido quando adolescente na Holanda, perdido, sem dinheiro... Lembro de uma noite, num albergue, em que vi uma palavra que tinha 19 consoantes e comecei a chorar.

Um dos roteiros que você interrompeu para vir ao festival foi o do livro Tiger Tiger, autobiografia de uma garota que mantém, a partir dos 7 anos, um relacionamento com um homem de mais de 50. A polêmica na mídia o incentivou a tocar o projeto?

É uma história muito forte. Achei o livro num aeroporto, em Milão. Obviamente, não tenho simpatia nem perdoo quem machuca os outros, quanto mais criança. Eu mesmo tive experiências de abusos, sendo um menino judeu que cresceu em um bairro alemão.

Como vai ser transpor essa história para o cinema?

Cuidamos para não deturpar os fatos e reconstruir a narrativa com fidelidade ao livro. Fui até rever Pretty Baby - Menina Bonita, o filme do Louis Malle que lança a Brook Shields, em que ela faz uma menina que cresce num prostíbulo.

Em que fase está o filme?

Cada etapa é uma nova batalha. Comprar os direitos foi uma batalha, escrever o roteiro está sendo outra batalha, o casting também, como filmar ainda não sei... Mas fazer um filme não é como preparar um suco instantâneo, mistura com água e está pronto. Estou sempre na fronteira entre o que quero e a impossibilidade de consegui-lo.

Alguma previsão de quando Tiger Tiger vai ser lançado?

Gostaria de filmar no Brasil, em 2013, se conseguir os recursos. Tudo é demorado em cinema.

O outro filme é um roteiro original seu?

Cidade Maravilhosa é um roteiro original. É um filme que tenta lidar com os aspectos mais emblemáticos que tornaram o cinema brasileiro conhecido, como a miséria, a violência, essa coisa de terceiro mundo, mas de uma forma manipulada. Essa é mais ou menos a trama e que tem uma história de amor paralela.

Você se sente inspirado a fazer um filme aqui?

Faria um filme em qualquer lugar. Adoro ficar num lugar por algum tempo para trabalhar. Isso já aconteceu nos EUA, na Amazônia...

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