Hector Babenco está vivo

O documentário de Bárbara fala de cinema, amor pela vida, sensação de exílio

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S.Paulo

06 de fevereiro de 2021 | 03h00

Hector era dos caras mais atenciosos. Com os amigos. Não sei se era com quem atrapalhasse um set de filmagem. No de O Beijo da Mulher Aranha, de 1984, ele e o ator William Hurt, que aliás ganhou o Oscar pelo filme, não se falavam depois de um tempo.

Hurt, machucado na alma, dirigia-se ao assistente: “Pergunte ao diretor para que lado ele quer que eu olhe”. Hector estava diante dele. Dizia ao assistente: “Diga ao ator para olhar para a esquerda”. 

O set era no lendário estúdio da Vera Cruz, aqui em São Bernardo. Fui visitar algumas vezes. Dois amigos meus foram assistentes dele. Inclusive o futuro diretor de Feliz Ano Velho, Roberto Gervitz, que me procurou, insistiu, e Hector recomendou. 

Ele alimentava literalmente amizades com os tipos mais diversos em muitos jantares na sua casa de arquitetura espetacular da Vila Nova Conceição que, dizia ironicamente, foi paga com o dinheiro do Jack Nicholson, em referência ao filme Ironweed (de 1987), que acho, por sinal, um filmaço. Recebia amigos velhos, novos e desconhecidos. 

Tinha uma mesa que ocupava todo o comprimento da sala. Cabiam umas 30 pessoas. Radiohead passou por lá. Eram fãs de Pixote, de 1982. A comida saía da própria cozinha, feita por Goreti, seu anjo da guarda, cozinheira talentosa que, na entrada, nos recebia com um sorriso enorme e deveria abrir um restaurante de tão boa. Chamado Hector. 

Quase sempre eu era o último a ir embora. Porque ele tinha se casado com uma das minhas melhores amigas, Bárbara, atriz da escola Praça Roosevelt que começou no picadeiro, no alternativo, ficou em cartaz no porão do CCSP e deu gás na vida do marido bem mais velho, renovando as relações e mantendo próximas as antigas. 

Depois de todos irem, Hector ficava um tempo contando histórias, explicando suas obras de arte penduradas, esculturas, e seus filmes. Incrível, mas ele tem apenas dez filmes. 

No começo, era um atrás do outro, que logo repercutiam no mundo. Aqui, explodiu em 1977 com Lúcio Flávio, filme que abriu a primeira Mostra Internacional de Cinema do Leon Cakoff, antes chamada de Mostra do Masp, porque era no seu auditório sempre lotado.

Eu tinha 18 anos e fui um dos que votaram no filme: Prêmio do Público. Saí de alma lavada. Lúcio Flávio, rodado em plena ditadura, denunciava sem falar dela. De uma forma sutil e genial, tratou das mazelas do regime, tortura, da polícia corrupta, driblando a censura. No território das milícias, continua atual. 

O cineasta mostrou que fuga, prisão, disparidades sociais, “despertencimento”, com personagens contraditórios, eram a sua marca. Deu uma pirada em Brincando nos Campos do Senhor, de 1991. Estourou o orçamento e o prazo. Como Fitzcarraldo, foi corroído pela densidade da Amazônia. A partir de então, passou a filmar pouco. Filmes de bêbado e na Amazônia, a classe sabe, viram maldições.

No comovente documentário Babenco – Alguém Tem Que Ouvir o Coração e Dizer: Parou, de Bárbara, revela-se: ele soube que estava com câncer assim que terminou de filmar O Beijo da Mulher Aranha, aos 38 anos, com o qual foi indicado para o Oscar com Akira Kurosawa, John Huston, Peter Weir e Sydney Pollack. Aparece na cerimônia em close para milhões de espectadores. Com um olhar perdido, confuso. Encantado e triste. 

Nas filmagens de Brincando, teve que fretar um avião para ser operado em São Paulo. Voltou logo depois para continuar a filmagem, sem contar nada a ninguém, escondendo a cicatriz. Começou uma saga entre hospitais, remédios que não curam, mas adiam, mostras, festivais, filmagens. Começou o duelo entre a vida e a morte que durou incríveis 32 anos. 

“Eu só vivi a minha morte, só falta fazer um filme sobre ela”, disse, intimamente, a Bárbara. Que fez com ele Meu Amigo Hindu. Willem Dafoe era Hector no leito de morte. Bárbara era Bárbara, clown que amava seu homem e lutava com ele, por ele.

O amor dos dois conduz o documentário, que fala de cinema, amor pela vida, sensação de exílio: judeu-argentino, Hector se sentia de lugar nenhum e, ao mesmo tempo, de todos. Aparece em Mar del Plata, São Paulo, Trancoso, EUA, Itália, França, fala correntemente inglês e francês.

Dopado no final por altas doses de morfina, nem sabe mais onde está. Perde os movimentos. Passa a confundir sonhos com realidade. Ainda consegue dizer: “Para contar uma história, é preciso viver”, “Enquadrar só o que interessa ver”, “Cinema é onde a gente procura refúgio e diversão”.

Bárbara tem aulas de teoria e prática cinematográficas flagrando Hector em momentos de paixão e dor. Ela não desgruda dele. Vira palhacinha, musa e enfermeira. Pede para ele lutar mais. Convence-o. 

Muitas vezes, ela largou gravações de uma novela ou filme porque o marido fora internado. Entendeu-o como poucos. Foi fiel até o último desejo. Filmou um jantar entre amigos. Nele, Paulo José, protagonista do primeiro filme dele, O Rei da Noite, de 1975, e que também luta. 

Hector está vivo entre nós. Passeia entre as ruas de Hong Kong, como prometeu antes de morrer. Somos gratos a ele. Somos todos Hector. Obrigado, Bárbara. 

É ESCRITOR E DRAMATURGO, AUTOR DE ‘FELIZ ANO VELHO’

 

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