Hector Babenco

ELE NASCEU NA ARGENTINA, VIROU CINEASTA NO BRASIL, ENFRENTOU UM CÂNCER, FILMOU A ALMA MASCULINA EM O PASSADO E AGORA, AOS 64 ANOS, SE SENTE COMO UM GAROTO DE DEZ

Flavia Guerra, O Estado de S.Paulo

11 de abril de 2010 | 00h00

Você não estreia um filme desde O Passado, em 2007.

Preparo dois novos roteiros. Acho que não sei dialogar com o público que hoje busca um cinema mais óbvio. Sei que tenho um público, incluindo os jovens, mas admito que padeci muito com O Passado. Contei a história de um homem como todos, que sempre fui também, à mercê do universo feminino, Um filme delicado, que passou em brancas nuvens. Mas o que sei é que vou dirigir uma peça de teatro este ano, que estreia no Sesi da Paulista em outubro. É uma adaptação de Hell Paris, de Lolita Pille (com Bárbara Paz, sua mulher, no elenco). Posso quebrar a cara, mas gosto de apostar. Se ficasse só no "seguro", não teria feito muita coisa na minha carreira. E ainda me encanto por artes em que o ser humano está de fato presente.

Não é uma contradição você fazer cinema e defender as artes "de corpo presente"?

É que, quando vou ao cinema, padeço de um grande mal porque gosto de tudo e sei do esforço para se fazer um filme, mesmo os horríveis. Apagou a luz e estou feliz. O que me deixa infeliz é barulho de pipoca, gente conversando. Nunca sou tão zen como quando estou no cinema. Vou pouco, mas vi três vezes o Anticristo do Lars von Trier.

Você vê TV, usa muita internet?

Muito pouco. Ver notícias na TV me tira o prazer de ler notícias no jornal na manhã seguinte. A internet nos impõe uma urgência de responder tudo muito rápido que me parece um pouco imoral. Não é preciso ter tanta pressa na vida. Estou reencontrando o prazer da leitura. Leio Proust, Em Busca do Tempo Perdido, que deixei para quando tivesse já feito algo na vida. Apesar de ser muito grandão, de dar muita bronca, sou uma pessoa frágil. Por isso, me protejo, quero mais qualidade nas minhas perguntas e não quantidade. Como dizia Robert Altman, tudo que quero é sentar no meu sofá e fumar tranquilo e, quando puder, fazer um filme.

Como alguém com sua história pode achar difícil fazer cinema no Brasil?

Hoje no Brasil é tão fácil para um iniciante do Tocantins (nada contra este jovem) fazer um filme quanto para mim. Há dois anos a Petrobrás não me recebe para falar de um projeto. Ligo lá e as secretárias me pedem para "entrar nos editais".

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