Denise Andrade/AE
Denise Andrade/AE

Hebe do sofá e da música

Além de exibir objetos pessoais e de sua trajetória na TV, exposição organizada por Claudio Pessutti e João Marcello Bôscoli vai recuperar sua atividade como cantora

JULIO MARIA, O Estado de S.Paulo

23 de abril de 2013 | 02h07

Hebe Camargo morreu sem saber o tamanho exato que tinha. Para ela, era 1,63 metro de altura e pronto, não se falava mais nisso. Talvez um pouco mais do que isso quando montava no salto ou inspirava-se para mudar o visual pedindo ao cabeleireiro que armasse a loirice. Que não viessem com idolatrias porque Hebe Camargo simplesmente não entendia nada do assunto. Uma tarde, em Florianópolis, deixou isso claro. Hebe havia acabado de descer do avião ao lado do sobrinho e empresário Claudio Pessutti. Olhou a multidão esperando aos gritos eufóricos na sala de desembarque e levou um susto. "Puxa Claudio, quem será que vai chegar aqui hoje?" Era sério. Hebe Camargo não sabia o tamanho que tinha.

Sua mania de guardar tudo, porém, ajuda bastante a história. Boletins de colégio, cartas de fãs, o primeiro selinho, capas de discos, centenas de vestidos, fotos, montanhas de sapatos, milhares de horas de imagens gravadas em vídeo.

A perua assumida queria era mais, sem pesares ou culpa. Até seus dois automóveis Mercedes, um de 1996 e outro de 2000, estarão na exposição Hebe, Rainha. Foi a bordo de um deles que a Hebe do interior de São Paulo demonstrou o pouco que entendia da maldade urbana. Quando um ladrão bateu no vidro do carro pedindo seu relógio, ela olhou para o pulso e respondeu: "Onze e meia."

Só réplicas. Suas joias estarão em destaque, mas Claudio ressalva que todas serão réplicas. "Seria muito arriscado fazer com as originais." A curadoria dos vestidos de uma mulher que fez mais de 1.300 programas praticamente sem repetir peças será outra grande tarefa. A curadoria pensa em escolher apenas 40, que passarão por um serviço especial de lavagem e secagem que não custa menos de R$ 1 mil por unidade.

A Hebe dos brilhos e do sofá é apenas uma, talvez a mais conhecida. A outra Hebe, da música, onde tudo começou, precisa de um olhar mais atento e um mergulho minucioso. Claudio e João querem levantar toda a discografia da apresentadora que se uniu a três outras meninas, uma irmã e duas primas, para formar um quarteto quando ninguém poderia imaginar a existência de uma caixa que mostrava imagens em movimento chamada televisão.

Foi no rádio que a Hebe de Taubaté virou a Hebe Camargo. Uma invenção que partiu do nada, da mais completa ausência de impostação da voz e do corpo, de um naturalismo que talvez só fosse conhecido nas boates de São Paulo. Ou na casa de Hebe Camargo. E a essa altura, Hebe já havia cantado em boates. "É na Rádio Nacional que Hebe faz seus encontros musicais e cria o seu estilo. Conversa com simplicidade e simpatia", escreveu o jornal O Estado de S. Paulo em um artigo de 1954.

Antes do sofá, era o microfone. A vida nos estúdios só veio depois de uma batalha que Hebe empunhou com decepções. Por uma, duas, três vezes foi gongada sumariamente em programas de calouros até achar conforto na Rádio Tupi e na Rádio Nacional.

Os discos de Hebe devem ganhar uma sala à parte. Ela realmente acreditava em seu potencial como cantora - e a gravadora Odeon também. Em 1954 apareceu cantando em um disco de 78 rotações os sambas Oh, José (de Esmeraldinho e Ribeiro Filho) e Quem foi que Disse (de Gabriel Aguiar e Valadares do Lago). Dois meses depois e já havia outro na praça, com um samba de Dorival Caymmi (Nem Eu) e uma canção de Getúlio Macedo e Bené Alexandre, chamada Mambo Caçula. Mais três meses e outro disco, com Baião Caçula, que responderia por uma vendagem expressiva à época de 20 mil exemplares.

Claudio Pessutti acredita que o que não estiver guardado deve chegar por fãs devotos da tia. "Álbuns, revistas antigas, tenho certeza de que vamos começar a receber muitas coisas a partir de agora."

Hebe For Ever. Ao mesmo tempo em que arquiteta a exposição, o sobrinho empresário desenvolve outros projetos na empresa que criou para cuidar do legado de Hebe Camargo. Os três itens que anuncia ao Estado ratificam sua intenção de passar a limpo a vida da apresentadora e de abrir todos os seus arquivos. Sem se aprofundar em detalhes, afirma que um filme sobre a vida de Hebe já está em negociação; que um livro homenagem será lançado ainda este ano pela editora de obras luxuosas Toriba e que, em breve, um box trará toda a discografia praticamente perdida da cantora.

Ficam de fora, por enquanto, as histórias que não estão registradas em jornais e os contos que não viraram música. "Não dá para ter animais na exposição", avisa João Marcello. Se desse, estaria por lá Atrium, o cão de santo forte que escapou da morte no dia em que Hebe resolveu assistir ao noticiário da TV. O cãozinho agonizava no rio Tietê quando foi salvo pelos policiais militares. A reportagem dava a entender que, se ninguém o procurasse, seu destino seria a máquina de sabão. Hebe mandou buscar o cão e o recebeu com mil selinhos.

Ela não suportava o sofrimento alheio. Sofria às vezes mais do que o próprio sofredor. Ao ver acidentes de moto pelo caminho, ela parava seu Mercedes no meio da rua, descia e ia ver se estava tudo bem com o motoqueiro. Se não estivesse, chorava. Notícias de enchentes e outras tragédias lhe pegavam de jeito. "Ela mandava eu entregar cimento e tijolo para algumas famílias. Era um trabalho infinito, e claro que nunca divulgamos isso", diz Claudio.

Hebe talvez não entendesse a necessidade de uma exposição sobre si própria porque não fazia ideia do que era o show biz. Não que o negasse, ela simplesmente não o tinha nas veias. Claudio ficou com uma cena que o alarmou. "Ela nunca teve motorista particular, não ligava para essas coisas. Um dia, lembro que a deixei no aeroporto e ela saiu caminhando sozinha para o embarque. Fiquei olhando aquilo e pensei: 'Não posso deixar ela assim nunca mais, e se acontecer alguma coisa?'" A partir de então, grudou na tia como um cão de guarda.

Os 25 anos de SBT, sob o comando de Silvio Santos, estarão em grande parte da exposição. Seus mais de mil programas na emissora só registraram falta em um dia, quando Hebe teve de fazer uma cirurgia. Em outro, Hebe ficou sem voz. Era evidente que a apresentação do programa seria prejudicada, que ela estava sem condições. Ainda assim, chamou o sobrinho e fez questão de ir se justificar com o patrão. Quando chegou diante de Silvio, balbuciou com o fio de voz que lhe restava que, lamentavelmente, não poderia estar ali. Silvio abriu a boca e soltou outro fio de voz. "Eu também estou rouco." Foi a única segunda-feira em que Hebe Camargo assistiu TV de casa.

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