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Heavy Metá

Banda põe mais peso no som em novo disco que mistura jazz com hardcore e versos inspirados no candomblé

RAMIRO ZWETSCH , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

24 de novembro de 2012 | 02h06

Roqueiros, tremei. Tua falta de imaginação e teus vícios já deram o que tinham que dar. Agora vocês vão sentir o peso do MetaL MetaL. Esse é o nome do novo e segundo disco do Metá Metá - banda paulistana que estreou em 2011 e agora reaparece com aquela dose dupla de veneno que, dizem seus integrantes, tanto faz falta ao rock de hoje.

"MetaL MetaL era uma brincadeira que fazíamos quando o show do primeiro disco começava a ficar mais agressivo. Com a necessidade de gravar um disco inteiro tocado de um modo mais pesado, assumimos o nome, que carrega uma ironia sobre o que é tocar rock hoje em dia. O rock se desgastou muito, se fechou em regras, ficou careta, reacionário. Debatemos o rock como jeito de tocar, atitude, isso vai além de apenas um gênero", explica Kiko Dinucci, guitarrista, violonista e compositor de seis das nove faixas do trabalho, três delas em parceria com Douglas Germano.

"MetaL MetaL tem uma sonoridade que não deixa nada a dever a qualquer som de rock que eu conheço e, além disso, tem uma atitude de experimentar, de buscar a liberdade expressiva, de deixar o groove se impor e sentir o corpo entrar no transe. Há algo mais rock que isso?", completa a cantora Juçara Marçal.

Está dado o recado: não estamos no território do ritmo quatro por quatro ou do esquema guitarra-baixo-e-bateria cada um no seu lugar marcado. Boa parte do repertório vem de cantos de louvação aos orixás (de domínio popular ou compostos por Dinucci), a polirritmia africana é uma das inspirações, o sax faz parte da cozinha e a guitarra pode tanto batucar quanto distorcer até soar como zumbido de mau contato. E a voz é um capítulo à parte.

Juçara Marçal tem algo mais ali e não é só a técnica. Se no primeiro disco do Metá Metá - e outros trabalhos anteriores - chamava atenção o dom de intercalar momentos de afinação e suavidade com uma emoção de arrepiar, agora ela também explode em berros com uma autoridade e tanto. "Os meninos brincavam que iam fazer um disco inteiro só pra eu gritar. Está aí, MetaL MetaL. É muito prazeroso exercitar esse jeito mais livre de cantar. É arriscado também. Mas eu gosto de correr riscos", confessa.

Mais novidades surgiram de um disco para o outro. O primeiro dispensava o baixo e era baseado na trinca voz, violão e sax - bateria (Sérgio Machado) e percussão (Samba Sam) somavam-se em quatro das dez faixas. Agora, o sexteto está formado com os dois ritmistas e também o baixista Marcelo Cabral, que contribui um bocado para o peso do som. "Além disso, ele cria linhas que definem bastante o groove, deixando Kiko e eu mais livres", explica o saxofonista Thiago França, que também acrescenta barulho, mas mais influenciado pela referência do free jazz. "Trabalho muito o lance estético de texturas e dinâmicas, às vezes até ignorando o tom em busca de algo puramente rítmico. O free jazz abriu minha cabeça pra essas possibilidades."

Outra diferença está nas seis cordas, antes somente acústicas e agora principalmente elétricas - o que remete à história pregressa do músico, quando ele integrava bandas de punk rock. "A guitarra ainda está em um estágio de experimentação, procurando uma identidade que o violão já conseguiu. Apesar das limitações técnicas, ela vem ganhando um estilo próprio, punk polifônico, 'afro noise'. É isso que estou buscando", explica Kiko Dinucci.

A inspiração vaza nas faixas Oya e Man Feri Man. A primeira apresenta uma estrutura que é a especialidade do Metá Metá: sax, guitarra e baixo entrelaçam frases na introdução, enquanto o vocal se sobressai ao arranjo tal qual um grito de guerra.

Na segunda parte, aparece o "heavy metá" - uma combinação de fritação jazzística com golpes de hardcore e versos inspirados na cultura do candomblé. Man Feri Man, de domínio popular, estende a letra de três frases em iorubá por um transe de mais de sete minutos levado por um riff de guitarra que fica no meio do caminho entre o pós-rock e a música africana. "Eu me inspirei no Mali: Ali Farka Touré, Tinariwen. Lógico que não consegui, daí saiu outra coisa", decifra o guitarrista.

A música, uma cantiga para Oxum, registra Juçara Marçal no melhor de sua interpretação. "Nessas cantigas de santo, há sempre uma força tal, um jeito de se desenrolar, que parece trazer junto a simbologia, o jeito de ser do orixá que está sendo louvado ali. Há um vínculo tão grande entre a cantiga, a letra, os passos de dança, os gestos, o toque do tambor que faz com que, mesmo quem não conheça o idioma, seja mobilizado por essa força", diz ela.

Já Tristeza Não (Itamar Assumpção e Alice Ruiz) é a única do disco que retoma o formato de trio, a única acústica, a única que não é de autoria de Kiko nem domínio popular. A ausência de bateria e eletricidade poderia causar a falsa impressão de que é, também, a menos rock do disco. Juçara discorda. E corrige: "É a mais metal de todas! Aquele riff de violão é para sair batendo cabeça. O Ita é um verdadeiro orixá urbano pra nós". Roqueiros, tremei: tua concepção de rock levou um coice.

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