Desiree Rios/The New York Times
Desiree Rios/The New York Times

Harvey Weinstein é condenado por estupro e abuso sexual

Veredicto sela a queda do magnata de Hollywood depois do movimento #MeToo; júri o considerou inocente pela acusação mais séria

AP e NYT, O Estado de S. Paulo

24 de fevereiro de 2020 | 14h24

O produtor Harvey Weinstein foi declarado culpado pelos crimes de violação e abuso sexual, selando a queda do magnata de Hollywood depois do movimento #MeToo. Ele foi condenado por acusações de abuso sexual ocorrido em 2006 e de um estupro em 2013. O júri considerou Weinstein inocente pela acusação mais séria, agressão sexual predatória, que poderia resultar em uma sentença de prisão perpétua.

Weinstein deve aguardar na prisão a sentença, que será divulgada em 11 de março, informou o juiz James Burke. A defesa do produtor anunciou que irá recorrer da decisão.

O produtor, de 67 anos, será sentenciado por Burke com uma pena mínima de cinco anos e uma máxima de 25 anos por agredir sexualmente a assistente de produção Mimi Haleyi, em 2006, e pelo estupro da ex-atriz Jessica Mann, em 2013.

Weinstein parecia resignado quando o veredicto chegou e foi visto conversando com seus advogados logo depois.

O veredicto chega após três semanas de depoimentos dolorosos envolvendo acusadoras que falaram de violações, sexo oral forçado, masturbação e propostas indecorosas justificadas em Hollywood como parte da cultura do "teste do sofá".

A condenação foi vista como um esperado ajuste de contas, depois que anos de rumores sobre o comportamento de Weinstein se converteram em 2017 em uma torrente de acusações que destruiu sua carreira e deu lugar ao #MeToo, o movimento global para incentivar mulheres a se pronunciar e denunciar homens poderosos por conduta sexual inapropriada. 

As mulheres que acusaram Harvey Weinstein de agressão sexual ou estupro "mudaram o curso da história", disse o promotor de Manhattan na segunda-feira, Cyrus Vance, após o veredicto. Weinstein também foi acusado em janeiro de dois ataques sexuais em Los Angeles, pelos quais ele ainda deve responder à justiça. Também é alvo de vários processos civis.

Cronologia do caso Weinstein

As acusações de má conduta sexual contra o produtor de cinema Harvey Weinstein em Nova York e Los Angeles surgiram bem antes de ele ser acionado judicialmente em Manhattan.

Abaixo uma cronologia do caso envolvendo Weinsten que culminou com a sentença.

27 de março de 2015: promotores em Manhattan se negam a levar Weinstein a juízo

A modelo italiana Ambra Battilana comunicou à polícia de Nova York que Weinstein tocou os seus seios durante uma reunião de negócios no escritório dele em TriBeCa, em Manhattan. No dia seguinte, trabalhando com os investigadores, ela visitou Weinstein no Tribeca Grand Hotel e secretamente gravou uma conversa em que ele se desculpou pelo ocorrido no encontro.

Mas duas semanas de investigação realizadas por promotores designados para investigar crimes de caráter sexual, o responsável pelo ministério público do distrito de Manhattan, Cyrus R. Vance Jr, anunciou que as provas não sustentavam a acusação contra Weinstein, que seria um delito menor.

Agosto de 2017: Weinstein contrata investigadores para saber quem estava conversando com jornalistas

À medida que começaram a circular notícias de que jornalistas vinham examinando alegações de que Weinstein havia assediado um grande número de mulheres durante décadas, o produtor contratou uma agência de detetives particular, Black Cube, para investigar o que qualificou como “sinais de alerta” - ou pessoas que, Weinstein suspeitava, estavam falando sobre ele para repórteres de jornais.

Entre essas pessoas estava Annabella Sciorra, atriz conhecida pelo seu trabalho na série Família Soprano, que afirmou que Weistein a estuprou no apartamento dela no bairro de Gamercy Park, em Manhattan, em 1993 ou 1994.

5 de outubro de 2017: O The New York Times e a New Yorker trazem detalhes das acusações de que Weinstein havia molestado mulheres.

O The New York Times publicou uma investigação detalhando relatos de várias mulheres afirmando que o produtor abusou delas ou as assediou em incidentes ocorridos já nos anos 1990.

Esses artigos deram impulso ao movimento #MeToo e aumentaram a pressão para as autoridades investigarem o produtor. Dentro de um mês, o departamento de polícia de Nova York anunciou que estava preparando um dossiê consistente de acusações contra ele.

19 de março de 2018: o governador de Nova York ordena uma revisão da decisão tomada em 2015 de não processar Weinstein a julgamento  

O governador Andrew M. Cuomo ordenou à promotoria do Estado de Nova York uma investigação das razões pelas quais Vance não aceitou as acusações feitas contra Weinstein no processo iniciado por Battilana em 2015. Recentemente ficou esclarecido que Vince recebera doações de campanha de alguns dos advogados de Weinstein. A investigação colocou em foco a decisão adotada por Vance.

25 de abril de 2018: Vance nomeia um novo promotor encarregado da investigação

Cyrus Vance substituiu o promotor que foi designado inicialmente para investigar Weinsten por uma promotora da área de homicídios, Joan Illuzzi. A mudança refletiu uma tensão entre o departamento de polícia e o gabinete do ministério público de Nova York sobre a maneira de tratar o caso.

28 de maio de 2018: Weinstein é preso

O produtor foi indiciado e se entregou na 1ª Delegacia de polícia em Manhattan, acusado de estupro e conduta sexual criminosa.

A acusação de estupro foi proveniente de um suposto abuso de uma mulher, não nomeada, no Doubletree Hotel no centro de Manhattan em 2013. Mais tarde foi revelado que se tratava de Jessica Mann, uma atriz principiante de uma pequena cidade de Washington.

A acusação de conduta sexual criminosa envolveu Lucia Evans, uma executiva de marketing que declarou aos investigadores que foi forçada por Weinstein a fazer sexo oral durante uma reunião de elenco em seu escritório em TriBeCa em 2004.

O advogado de Weinstein na época, Benjamin Brafman, afirmou em defesa do seu cliente que embora ele tenha tido “um mau comportamento”, não havia cometido nenhum daqueles crimes.

2 de Julho de 2018 - Promotores adicionam novas denúncias

Os promotores anunciaram que estavam adicionando novas denúncias ao processo de Weinstein, com acusações de sexo oral forçado no apartamento dele em julho de 2006, feitas por uma mulher não identificada. Posteriormente foi revelado que se tratava de Miriam Haley, ex-assistente de produção do programa de TV Project Runway.

As novas denúncias incluíam abuso sexual predatório, o que exige que os promotores provem que o réu cometeu um delito grave contra duas pessoas e implica uma pena de prisão perpétua.

11 de outubro de 2018: Juiz rechaça as acusações

Um juiz rechaçou a acusação de sexo oral forçado feita contra Weinstein na ação envolvendo Lucia Evans, depois de os promotores admitirem que a detetive que assumiu o caso não os informou sobre uma testemunha que colocara em dúvida o relato feito por Evans.

Três meses antes do indiciamento o detetive Nicholas DiGaudio soube por uma testemunha, amiga de Lucia Evans, que ela havia afirmado que estava disposta a fazer sexo oral com Weinstein em troca da promessa de um contrato para atuar como atriz.

DiGaudio nunca informou os promotores sobre esse relato contraditório o que despertou dúvidas sobre a viabilidade de todo o processo.

17 de janeiro de 2019: Weinstein muda os advogados, retardando seu julgamento

Brafman, advogado de Weinstein, retirou-se do caso, o que atrasou a data do julgamento. Brafman declarou ter descoberto vários e-mails trocados entre o produtor e suas acusadoras, o que sugeria que aspectos das relações foram consensuais.

11 de julho de 2019: Weinstein contrata uma equipe de advogados

O terceiro grupo de advogados do produtor que o representa no processo realizou uma coletiva de imprensa em Manhattan para anunciar seu trabalho. Eles assumiram o caso depois de Weinstein contratar e demitir uma segunda equipe de advogados.

A advogada que lidera o novo grupo, Donna Rotunno, de Chicago, disse na coletiva que Weinstein havia sido “levado de roldão” pelo movimento #MeToo.

26 de agosto de 2019: Sciorra é adicionada ao caso

Para respaldar suas acusações, os promotores obtiveram novo indiciamento contra Weinstein, convocando Sciorra, atriz da série Sopranos, como testemunha.

Segundo ela relatou, um alegado encontro com o produtor ocorreu quase 30 anos antes - um tempo muito longo para ele ser acusado numa ação separada de estupro com base na lei estadual de Nova York. Mas ela teve permissão de depor como testemunha porque suas declarações apoiariam as acusações de agressão sexual predatória.

6 de janeiro de 2020: Weinstein é indiciado em Los Angeles

Numa decisão surpreendente, o ministério público de Los Angeles acusou Weinstein de estupro de uma mulher, e de apalpar e se masturbar na frente de uma outra em questão de dois dias, em fevereiro de 2013.

As acusações na Califórnia foram apresentadas quando as partes em Nova York se se reuniam no primeiro dia de julgamento do produtor, em Manhattan.

23 de janeiro de 2020: Sciorra depõe

Perante o tribunal, Sciorra declarou que Weinstein entrou à força no apartamento dela no início dos anos 1990, depois de dar a ela uma carona na saída de um jantar e obrigou-a a ir para a cama.

“Tentei afastá-lo”, disse a atriz com a voz tomada pela emoção. “Eu o golpeei, dei pontapés”, mas Weinstein a dominou e “ficou em cima de mim e me estuprou”.

27 de janeiro de 2020: Haley, que foi assistente no programa Project Runaway, também depõe

Em seu depoimento, Miriam Haley afirmou que o produtor a forçou a ir para a cama e fazer sexo oral no seu apartamento em TriBeCa, em julho de 2006, apesar dos seus protestos. “Fui estuprada”, disse ela.

Ela acrescentou que “fiquei em tal estado de choque que simplesmente fui embora”. Haley disse ter mantido sexo com ele duas semanas depois do primeiro encontro em um hotel “e não resisti fisicamente”.

Ela admitiu que, depois disto, continuou a aceitar presentes e a se corresponder com ele, enviando-lhe e-mails amigáveis.

31 de janeiro de 2020: Mann, uma atriz novata, presta testemunho

Mann, em seu depoimento, acusou Weinstein de estuprá-la num quarto de hotel em Manhattan, tendo impedido que ela deixasse o quarto. Ela disse que ele ordenou que ela tirasse a roupa e injetou um medicamento em sua genitália, acrescentando que “nesse momento, eu cedi”.

Mann admitiu que antes já havia feito sexo consensualmente com o produtor e que depois do alegado estupro, seu último encontro foi em 2016.

Ela começou a chorar quando revelou no tribunal que foi abusada sexualmente quando era mais jovem. Isto quando leu uma carta que escreveu para um namorado em que descreveu Weinstein como “um pseudo-pai”, que lhe havia dado “toda a aprovação que eu necessitava”.

18 de fevereiro de 2020 - Júri inicia suas deliberações

Os cinco homens e sete mulheres do júri começaram a deliberar depois de um julgamento que durou um mês e incluiu o depoimento de seis mulheres que acusam Weinstein, como também de especialistas e outras testemunhas.

Os jurados se defrontaram com questões difíceis. Eles tinham de decidir se os relacionamentos entre as mulheres e Weinstein eram consensuais e em troca de alguma coisa, como seus advogados sugeriram. E se o sexo consensual entre Weinstein e algumas das mulheres prejudicava as acusações de que, em outras ocasiões, ele as agrediu sexualmente. /Tradução de Terezinha Martino

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