Harry Potter conquista leitor adulto

A primeira coisa que minha filha, Talita, de 11 anos, fez ao terminar o primeiro e o segundo volumes de Harry Potter, foi recomendá-los aos pais e ao mundo, dizendo que não era leitura somente para crianças. Ora, sabemos que as resenhas são normalmente escritas por adultos e o entusiasmo de jornalistas norte-americanos com o mais recente volume, Harry Potter and the Goblet of Fire (HP e o Cálice de Fogo) chega a ser desconcertante. Todos falam sobre o talento da autora J.K. Rowling para criar situações em cascata que não dão sossego ao leitor, mantendo-o em suspense nas suas 734 páginas, como acontece com O Cálice. Mas a melhor resenha foi feita por um mestre da literatura fantástica descartável, Stephen King, no caderno literário do New York Times, há algumas semanas. King, com sua experiência e prestígio, falou sobre a colega com uma admiração que só encontramos nos garotos e garotas que se apaixonaram pela saga. Suas palavras adquirem mais importância quando lembramos que é raro um escritor demonstrar muita animação com a obra de colegas, mas há outra causa. O autor de Cemitério leu Harry Potter com o mesmo descompromisso de uma criança. E, convenhamos, no meio de tanto trabalho escolar, aula de dança, de futebol, de inglês, ortodentista, natação, capoeira, etc., nada melhor do que recuperar o prazer da leitura por ela mesma.E é isso que Rowling oferece com suas histórias. Comecei pelo último volume - foi um teste, ninguém consegue enganar todo mundo em 734 páginas - e, repetindo uma espécie de desvio comum nos leitores profissionais, procurei detectar influência do Tolkien de O Senhor dos Anéis na história. Existe parentesco mas ao contrário do grande ficcionista e erudito sul-africano, a escritora constrói uma longa aventura situada no mundo contemporâneo ao qual reconstitui a mágica que parece perdida sem, e aí está o truque, deixar de lado a realidade das emoções, sabendo trabalhar o ódio, o medo, o ressentimento e o amor imbricados na trama. Seu texto é preciso, divertido, irônico, satírico e ela domina a técnica do suspense e da surpresa policial, fazendo cortes precisos, ao mesmo tempo em que puxa os fios de interesse na hora certa.Não perde tempo com muitos detalhes, sabe dosá-los de maneira a criar o clima de cada cena, mas o importante no caso é a ação, que se acompanha no texto. A frase é rápida, os personagens desenhados em traços breves e decisivos, envolvidos mesmo sem saber numa luta entre o bem e o mal, da vida com a morte, que as pessoas comuns - como a família adotiva de Harry - fingem não existir, apegadas aos clichês da banalidade.Mas que Harry e seu cúmplice imediato, o leitor, percebem como qualquer criança a partir do momento em que se vê uma exceção, incompreendida, desprezada e estigmatizada, mas convicta de suas intuições sobre como enfrentar a realidade do perigo.A autora informa que o herói é órfão de pai e mãe e estes foram mortos por um feiticeiro horroroso. Isso para mostrar que mesmo a tragédia é contaminada pela energia vital de Harry, disposto a tocar a bola para a frente - ele poderá ser a próxima vítima e, como disse Guimarães Rosa, morrer é fácil, viver é que são elas. Está lançado o desafio. No quarto volume, Voldemort, o tal feiticeiro, volta bastante arrasado, mas sempre disposto a fazer todas as suas malvadezas. Ele é a figura da qual não se diz o nome, um nome que chama atenção, por lembrar um inusitado português Vale da Morte, ainda mais se pronunciado à lusitana. Será que ela sabe português ou qualquer língua latina?, perguntei-me intrigado ao entrar no universo de Harry. Nunca se pode cravar, mas logo depois fui informado de que a autora tinha sido casada com um jornalista português e vivido no Porto. O gajo, drogado, expulsou-a de casa com uma filha. De repente o nome deve ser evitado não só como recurso ficcional.De qualquer modo, o mal está presente no romance com uma força repulsiva. Rowling tem boa mão não só para criar a atmosfera grotescamente aterrorizante em torno do mau caráter, mas também para o humor que devasta a hipocrisia dos tios com os quais Harry consegue sobreviver. Sim, lembra Tolkien, mas também Dickens e Peter Pan. Um toque de Lovecraft misturdo com Andersen. Isso não diminui a escritora, pelo contrário, serve para colocá-la à mesma altura, pelo menos na companhia dos bons: as 734 páginas de HP e O Cálice de Fogo desaparecem num passe de mágica.

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