Haroun, grito da África

E da África veio uma boa surpresa, o filme do Chad Un Homme Qui Crie. É o quarto trabalho do diretor Mahamat-Saleh Haroun e, como o anterior, Daratt, interpretado por Youssouf Djaoro. O ator é excepcional e, como disse o próprio cineasta, seu mérito é viver o personagem discretamente, mas com intensidade, o que consegue com acurado trabalho de investigação e pesquisa. Na coletiva, Djaoro revelou que não pertence a nenhuma escola de teatro nem cinema. Cria a partir da observação.

CANNES, O Estado de S.Paulo

17 de maio de 2010 | 00h00

Haroun já foi premiado duas vezes em Veneza, por Bye Bye África e Daratt. Ele diz que é uma responsabilidade muito grande - e pesada - ser o representante africano no maior evento de cinema do mundo. O filme retrata o Chad dividido pela guerra civil. A filmagem, com apoio financeiro da França, mais de uma vez teve de parar por causa de combates nas proximidades do set. Daí o caráter de urgência que Um Homem Que Grita possui.

É a história de um pai e sua relação com o filho. O pai é um campeão de natação que cuida da piscina de um clube. A piscina é sua vida, mas ele, por força da idade, é afastado do cargo, entregue a seu filho. Ele veste o uniforme de porteiro, o que, para ele, é uma degradação. Até por isso, mas também pela política vigente em sua vizinhança, o pai entrega o filho ao Exército, que o envia para a frente de combate.

Ao perceber o horror do gesto, Djaore busca o garoto no front, para devolvê-lo à mulher e à namorada, que espera um filho. Mahamat Saleh-Haroun fala tão bem quanto filma. Ele tem uma visão muito clara - e lúcida - do que representa o cinema num país como seu. Lamenta que a África seja uma espécie de primo pobre nos grandes festivais, mas vê nisso um signo da realidade. O festival recém-começou, mas um prêmio para seu ator seria uma bela recompensa. / L.C.M.

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