Hannah Arendt, vista por sua criadora

Atriz de Fassbinder, Barbara Sukowa fala do filme de Margarethe Von Trotta

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

10 de julho de 2013 | 02h09

Ela não gostava de ser chamada de filósofa. E a atriz Barbara Sukowa arrisca que Hannah Arendt também não gostaria de ser definida como feminista. Mas essa mulher, com certeza, marcou a história do pensamento no século 20, principalmente depois de cobrir, para a revista The New Yorker, o julgamento de Adolph Eichmann em Israel, no começo dos anos 1960. A experiência deu origem a um livro - Eichmann em Jerusalém -, que também estabeleceu o conceito da banalidade do mal, que virou a pedra de toque do pensamento de Hannah Arendt. E justamente este período da vida de Hannah é evocado no filme em cartaz na cidade.

Barbara Sukowa pode dever sua fama inicial a Rainer Werner Fassbinder, depois de fazer com ele o monumental Berlin Alexanderplatz e Lola, mas também possui uma parceria de longa data com a diretora Margarethe Von Trotta, que assina Hannah Arendt. Em 1986, Barbara foi melhor atriz no Festival de Cannes, dividindo o prêmio com a brasileira Fernanda Torres, por seu papel em Rosa Luxemburgo, outro filme de Margarethe. Nenhum dos dois pretende ser uma biografia, mas selecionam recortes da vida de suas protagonistas para iluminar quem foram e o que pensavam.

A entrevista é por telefone e o número, em Nova York. O que Barbara Sukowa faz na Big Apple? "Moro aqui há mais de 20 anos, no Brooklyn. Minha vida na Alemanha se tornara impossível e, para continuar de bem com meu país, eu tive de me distanciar dele. Nos EUA, permaneço uma atriz e cantora alemã." Pois a verdade é que, a par de extensa filmografia, com papéis no cinema de língua inglesa, Barbara também é cantora lírica de prestígio, com memoráveis interpretações em peças como o Pierrot Lunaire de Arnold Schoenberg.

Como ela se preparou para fazer Hannah, a personagem? "Da mesma forma que em Rosa Luxemburgo. Não tenho semelhança física com nenhuma das duas, e em nenhum momento Margarethe e eu pensamos que eu deveria me transformar nessas mulheres. Nesse sentido, nossa parceria vai na contramão das cinebiografias de Hollywood. Procurei me documentar, reproduzir certos gestos, como o cigarro de Hannah, mas nunca imitando nem mimetizando. O importante nesses filmes não é o trabalho da atriz, mas a personagem em cena. São filmes de ideias, não de performances."

Rosa Luxemburgo, a Rosa Vermelha - na Alemanha ela era a Bloody Rosa -, foi uma filósofa e economista marxista, odiada como tal. "Há quase 30 anos, a geopolítica mundial ainda era outra e o simples fato de haver um filme para discutir as ideias de Rosa, em pleno surto do terrorismo na Alemanha e na Itália, com o Baader Meinhoff e as Brigadas Vermelhas, já parecia provocação. Mesmo hoje, com Hannah Arendt, é possível ver que certos assuntos causam incômodo. Mas, sim, é verdade, as reações foram mais fortes contra Rosa."

Hannah Arendt estreia logo após a apresentação especial, em Cannes, do novo longa de Claude Lanzmann, O Último dos Injustos. Ambos abordam a complexa atitude dos dirigentes judeus nomeados pelos nazistas para administrar as comunidades destinadas ao extermínio, os 'Juddenrats' (Conselhos Judaicos). Embora não tenha visto o filme de Lanzmann (leia abaixo), Barbara reconhece as semelhanças. E também acha que a maior serenidade com que Hannah Arendt está sendo visto agora pode ser benéfica para o próprio pensamento da autora. "Quando formulou suas teorias, Hannah estava longe da unanimidade. Ela sustentava que os judeus deveriam ter-se recusado a formar os Juddenrats, porque isso poderia ter engendrado um caos que, no limite, levaria a novas formas de resistência e, por isso, talvez tivesse havido menos judeus mortos nos campos de extermínio. Historiadores importantes já acusavam Hannah de abordar a história com demasiados 'ses'. A análise histórica não se faz de conjeturas."

E Barbara prossegue. "Para mim, e é o ponto de Margarethe, a grande contribuição de Hannah foi trazer para o primeiro plano a questão da responsabilidade do povo alemão. O processo de Eichmann foi decisivo. Hoje sabemos muito mais sobre a impregnação ideológica empreendida pelos nazistas, mas. já naquela época, o processo expôs que o extermínio não foi só o produto da maldade de alguns. Houve uma vasta rede de burocratas que diziam que cumpriam ordens. Essa banalização do mal foi de uma importância extraordinária, na época como hoje." Sobre Fernanda Torres, com quem dividiu o prêmio de atriz em Cannes (por Eu Sei Que Vou Te Amar, de Arnaldo Jabor). ela diz: "Era uma jovem muito talentosa. E filha de uma grande atriz (Fernanda Montenegro), que depois ganhou em Berlim (por Central do Brasil, de Walter Salles), não? Foi um bom ano em Cannes."

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