Fabrizio Bensch/Reuters
Fabrizio Bensch/Reuters

Hanna Schygulla, a defesa de sonhar

Hanna Schygulla embarca hoje em Paris e desembarca amanhã de manhã em São Paulo para a homenagem que a Mostra lhe presta no fim de semana. Nos últimos anos, a chamada "musa" de Rainer Werner Fassbinder tem sido homenageada em grandes eventos internacionais de cinema. Hanna recebeu até um Urso de Ouro de carreira, no Festival de Berlim. Todo esse reconhecimento é gratificante ou também pode ser motivo de constrangimento? "É um pouco as duas coisas", ela desabafa, numa entrevista por telefone, da capital francesa. "Massageia o ego ficar ouvindo como as coisas que você já fez são boas, até porque filmes não se fazem sozinhos e é uma forma de elogiar também os grandes autores com quem trabalhei, Fassbinder, principalmente. Mas estou viva. Não vivo de recordações. Quero olhar para a frente, não ficar presa ao passado. Neste sentido, um troféu de carreira pode ser um embaraço, como se estivessem querendo me aposentar", ela diz.

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

28 de outubro de 2010 | 00h00

No caso da homenagem da Mostra, é particularmente gratificante saber que será apresentado um filme - uma série de TV - que ela fez em Cuba e quase não é conhecida no País. Me Alquilo para Soñar foi adaptado por Ruy Guerra de um original de Gabriel García Márquez, com roteiro de Cláudio McDowall e do diretor, quando integravam os quadros da escola de cinema de Los Baños. A entrevista está sendo em francês - Hanna, final, reside na França -, mas aí o repórter faz uma observação sobre a personagem que fala espanhol. Ela foi dublada? Por quem? "Não fui dublada. Aprendi a falar espanhol, ainda falo." A entrevista prossegue na língua de Cervantes.

A atriz conta como tudo começou. "Vivia com Jean-Claude (Carrière) quando Gabo (Gabriel García Márquez) nos visitou em Paris e falou do projeto de Me Alquilo para Soñar. A personagem, Frida, é essa mulher de origem alemã que interpreta sonhos. Sempre fui atraída por esse mistério da interpretação dos sonhos. Terminei fazendo a minissérie com Ruy (Guerra). Foi um dos melhores períodos da minha vida. Fiquei cerca de seis meses em Cuba, num período difícil. A série foi feita no começo dos anos 1990. Como a Queda do Muro de Berlim e a derrocada do comunismo, os subsídios de Moscou para Cuba foram cortados. Havia carência de tudo, menos de alegria. É impressionante como os cubanos sabem ser felizes", ela lembra.

Ruy Guerra, um diretor exigente - e meticuloso - tratava de acalmá-la, quando se angustiava por causa de seu espanhol. "Tome seu tempo, ele me dizia." Passaram-se já quase 20 anos e Hanna diz que seria ótimo reencontrar seu diretor. Eles se viram duas vezes depois daquilo, uma delas durante um seminário em Portugal. "É um dos trabalhos (Me Alquilo) dos quais me sinto mais orgulhosa. A Mostra está de parabéns por havê-lo selecionado."

Nos últimos anos, ela desenvolveu outra carreira - como cantora. Já se apresentou no Brasil (e pelo País). Adoraria cantar de novo - "Mas teríamos de já ter agendado isso. É preciso sala, acompanhamento. Um show, ou um recital, não se prepara de um dia para o outro." Hanna também virou diretora. Ela traz seu documentário sobre uma amiga muito especial, a atriz cubana Alicia Bustamante, que a acompanha em São Paulo.

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