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'Hamlet' ganha nova versão nacional

Na montagem que abre temporada no Teatro Tuca, herdeiro do trono da Dinamarca é interpretado pelo ator Thiago Lacerda

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES - O Estado de S.Paulo,

19 Outubro 2012 | 03h03

À frente do palco, o jovem Hamlet proclama sua cólera: "Quer tirar um sarro da minha cara?", questiona. "Me acha um frouxo?" O sentido da sua revolta é o mesmo daquele eternizado no clássico de William Shakespeare. Mas as palavras que esse príncipe usa não são aquelas que costumamos associar ao bardo.

Na montagem que abre temporada hoje no Teatro Tuca, o herdeiro do trono da Dinamarca fala um português nada castiço. "Procura uma forma íntima, brasileira, de chegar ao ouvido da plateia", observa Thiago Lacerda, ator que encarna o personagem-título.

Uma tradução que livrasse o texto de floreios desnecessários foi uma das principais preocupações do diretor Ron Daniels. "De que servem palavras complicadas que o público não entende? O que me interessa é o pensamento do Shakespeare. Ele não estava escrevendo poesia, mas teatro, ação", diz Daniels, que traduziu a peça ao lado de Marcos Daud. "Me sinto muito confortável com Shakespeare. Não é o texto que é intocável, é o seu conteúdo que é maravilhoso."

Especialista na obra do dramaturgo inglês, o brasileiro Ronaldo Daniel transferiu-se para a Inglaterra em 1964. Lá, foi diretor da Royal Shakespeare de Stratford-upon-Avon, cidade natal do escritor. Mundo afora, também já conduziu dezenas de montagens de seus textos, entre elas cinco versões de Hamlet. "E a cada vez com uma visão completamente diferente", acredita.

Na primeira delas, durante os anos da ditadura militar no Brasil, revestiu a tragédia de sentido político. Depois, imprimiu uma aura "espiritual" à criação. Mais adiante, concebeu a imagem de um Hamlet doméstico, um menino doente que, noite e dia, vagava pela casa de pijama. "De certa forma, esse espetáculo de agora é uma redescoberta do texto, mas também uma síntese de todas as outras montagens. Uma radicalização de todas as ideias que já tinham aparecido antes", comenta o encenador, que não trabalhava com teatro no Brasil desde 2000, quando dirigiu Raul Cortez em Rei Lear.

A ambição de encontrar uma forma "brasileira" de contar a história do filho em busca de vingança encontrou eco na tradução, simples e direta. Mas não levou o diretor a adaptar ou atualizar a trama. "Ao contrário, a intenção dele era não ter pretensão nenhuma. Apenas ser o mais fiel possível", acredita Lacerda, que sobe ao palco acompanhado por Antônio Petrin, como o rei assassinado, Eduardo Semerjian, como Claudio, e Selma Egrei, na pele da rainha Gertrudes.

Para atingir essa proclamada essencialidade, Daniels defende o apego ao texto e a recusa de veleidades artísticas. "Para dar vida aos personagens, paradoxalmente, nós temos que nos ausentar. Não me vejo como um artista. Não faço arte, faço pão. Um pão que deve ser bom, saboroso, mas que não quer ser mais do que isso."

Sem a presunção da originalidade, recupera-se o thriller tal qual concebido. Ao escrever Hamlet, o autor lidava com um gênero muito popular à época: as tragédias de vingança. A motivação do seu herói não era diferente da de tantos outros: obter desforra por uma morte. Mas sua consciência excessiva - dos fatos, da vida e de si -, seriam a fonte de sua ruína.

Ainda que seja sua primeira incursão pela dramaturgia de Shakespeare, Thiago Lacerda já estava. de certa maneira, familiarizado com as crises de consciência do mais representado personagem da dramaturgia ocidental.

Coincidentemente, o jovem atormentado que o ator vive agora guarda suas semelhanças com Calígula, protagonista da obra de Albert Camus que ele interpretou recentemente no teatro, sob a direção de Gabriel Villela. "Tenho certeza que o Camus foi beber em Hamlet. São dois personagens existencialistas, que exercitam constantemente o livre-arbítrio, que vivem uma liberdade sem limites."

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