"Hamlet" estréia no Sesi com atores jovens

Troca de governo provocainstabilidade política e a nação se vê ameaçada por inimigos quetentam tirar proveito da fragilidade do poder. Qual nação? ADinamarca, é claro. Não a atual. Mas aquela na qual WilliamShakespeare ambienta a tragédia do jovem príncipe Hamlet queserá interpretado por Marcos Damigo, na montagem que estréianesta sexta no Teatro Popular do Sesi, em São Paulo, sob direçãode Francisco Medeiros, com 15 atores no elenco. Um rei morreu. Seu irmão se casa com a rainha e assume opoder. A nação vizinha, da qual o rei morto havia conquistadoterritórios, percebe a fragilidade do rei ilegítimo e arma seusExércitos para reconquistá-las. A iminência de um confrontoobriga o reinado a um esforço de guerra, que empobrece os cofrese aflige cidadãos. Para piorar a situação, há rumores deassassinato. E críticas veladas à rápida troca de leito darainha. O corpo do ex-marido não havia esfriado e ela já casacom o ex-cunhado. "Há algo de podre no reino da Dinamarca." Afrase é bastante conhecida. Mas há tantos aspectos nessa peçaque um diretor pode até se dar ao luxo de enfatizar outrosângulos da tragédia. Medeiros não ignorou o viés ético e político deHamlet. O eixo central dessa montagem opõe uma antigageração de governantes aos jovens que, meio perplexos, percebema nação minada em sua soberania por culpa dos atos corruptos oulevianos dos responsáveis por conduzir os destinos dos cidadãos.E tentam impedir a derrocada do reino. "Nosso tempo está forados eixos. Maldita hora que eu nasci para endireitar", é afrase do príncipe Hamlet, não por mero acaso, destacada nocartaz da peça. "Trabalhamos sob dois eixos - vertical e horizontal. Naverticalidade, há o mergulho na alma humana proposto porShakespeare e, nesse sentido, buscamos trabalhar fundosentimentos - angústia, remorso, dúvida, ambição, amor e ódio -e contradições dos personagens", comenta Medeiros. "No eixohorizontal, tentamos contar a aventura desses jovens que se vêemdiante da necessidade de se manifestar para fazer emergir apodridão." Essa linha de trabalho determinou a escolha do elenco.Atores mais velhos e muito experientes nos papéis do rei Cláudio(Hélio Cícero), rainha Gertrudes (Selma Egrey) e do conselheiroPolônio (Plínio Soares), e atores jovens nos demais papéis. Ocenário a um só tempo simples e grandioso de Márcio Medina -imensos painéis de tecido que se movem no sentido horizontal evertical - permite grande dinamismo na troca de ambientes. Ritmosem prejuízo da atmosfera trágica também marca a ótima trilhacriada especialmente para o espetáculo por Lívio Tragtenberg,que assistiu aos ensaios e criou a música a partir das vozes dosatores. Medeiros dirigiu Subúrbia, bom espetáculo no qualbrilhou um elenco de jovens. Muitos estão em Hamlet."Estávamos ensaiando Subúrbia quando Medeiros perguntou se eunão queria fazer Hamlet com ele", lembra Damigo. Passado osusto, veio o medo. "E depois uma grande vontade de fazerquando começamos a trabalhar esse aspecto político e ético, essanecessidade do personagem de tomar uma atitude diante de umreino corrupto." Ele e Rosana Seligmann (Ofélia) foram osresponsáveis pelo projeto de montagem entregue ao Sesi. Ambosatores de Subúrbia, assim como André Custódio e Luciano Gattique interpretam respectivamente Rosencratz e Guildestein. O atorMarat Descartes é Horácio. "São personagens jovens e cada umdeles, a seu jeito, reage contra a situação em que se encontra oreino." Ressalte-se que a montagem integra um projeto mais amploem torno do autor, dentro do programa de formação de público doSesi. Desde maio há monitores orientando professores a alunossobre o universo do autor. E o público vai encontrar, no teatro,exposição de figurinos de outras montagens, acesso grátis asites de Shakespeare na internet, revistas, livros e até gibissobre o autor.Hamlet - De William Shakespeare. Direção Francisco Medeiros. Duração:2h30. De quinta a domingo, às 20 horas. Grátis (retirar convitescom uma hora de antecedência). Teatro Popular do Sesi. AvenidaPaulista, 1.313, tel: (11) 3146-7405. Até 1/12. Estréia sábado.

Agencia Estado,

08 de agosto de 2002 | 16h36

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