'Hamlet', encontro de tempos e estéticas

Grupo Clowns de Shakespeare em parceria com o diretor Marcio Aurélio

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES, O Estado de S.Paulo

18 de julho de 2013 | 03h01

"Quem vem lá?", pergunta o guarda. Nesse, que é o primeiro diálogo de Hamlet, as palavras são simples. Aparentemente, pouco entregam da tragédia que vai se abater sobre o castelo de Elsinor. Mas já desponta aí, na maneira de dizer essa frase inicial, a chave com que o diretor Marcio Aurélio lê o clássico maior de Shakespeare.

Em sua montagem da peça, atualmente em cartaz no Sesc Ipiranga, o encenador conduziu o grupo Clowns de Shakespeare até o momento em que a obra está situada. "Desde o primeiro ensaio, ele nos fez perceber uma coisa importante: tudo aquilo está sendo dito no século 13. Muitos anos antes do surgimento do romantismo", pondera Fernando Yamamoto, integrante da companhia do Rio Grande do Norte.

O caráter medieval da obra é um dos aspectos frisados por Marcio Aurélio. Com sua leitura, ele consegue livrar as interpretações das tintas do drama romântico, comumente evocadas quando se revisita a história do príncipe da Dinamarca.

Tanto apego histórico, porém, não confina a trama a um tempo específico. O texto de Shakespeare flagra um mundo em transformação. Hamlet pai é um nobre, mas ainda assim um bárbaro. Seu filho, não. Representa o surgimento de um novo homem. Frequentou a universidade, rompe com um ciclo atemporal de barbárie ao trazer novas variáveis a serem consideradas antes de levar a cabo sua vingança.

Conhecido por seu trabalho à frente da paulistana Cia. Razões Inversas, o diretor trouxe para esse convívio com os Clowns de Shakespeare alguns dos traços definidores de sua estética: primeiramente, busca uma cena limpa, com um mínimo de adereços. Outra característica não negligenciada nesse Hamlet é a filiação de Aurélio com o teatro de Bertolt Brecht e seu propalado distanciamento. "Organizo a peça como um jogo de armar", define. "Tiro os atores de uma certa dinâmica. Para mim, ensaiar é armar jogadas."

Não é a primeira vez que a trupe potiguar se une a um diretor convidado. Mas o território que essa nova parceria inaugura é certamente novo para o grupo. Em 2003, os Clowns trouxeram à cena Muito Barulho por Nada. Sete anos depois, com vontade de se aprofundar na poética do bardo, eles visitaram Ricardo III. O encontro com Gabriel Villela resultou em uma criação carnavalizada, que matizava a saga sangrenta com as cores da comédia. "Mas havia essa vontade, de visitar Shakespeare fora do universo cômico, de navegar por outras águas", pontua Yamamoto.

Acostumados ao tempo do humor popular e à relação direta com a plateia, os intérpretes estão nitidamente distanciados de sua zona de conforto. Mas a própria tessitura do Hamlet lhes oferece algumas brechas, respiros na tragédia, que eles bem sabem aproveitar: há a cena dos atores, oportuna para que mostrem seu colorido. E um aspecto que conseguem frisar com astúcia: em sua loucura fingida, o personagem-título é, sobretudo, um ator.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.