"Hamlet" de Brook vem ao Brasil

Uma das mais importantes obras deum dos supremos mestres do teatro contemporâneo chegará aoBrasil em três semanas. La Tragédie d´Hamlet, de WilliamShakespeare, dirigida por Peter Brook, vai apresentar-se em SãoPaulo e no Rio. De 13 a 16 de junho, no Teatro Sesc VilaMariana. E de 20 a 22, no Teatro Carlos Gomes, na capitalcarioca. La Tragédie d´Hamlet será mostrado aqui em versãofrancesa, com legendas em português. Recém-estreado, o espetáculoiniciou carreira no dia 5 em Zurique, está agora em Viena e emseguida viajará para o Brasil. A vinda da companhia de Brook,sediada em Paris, foi possibilitada pelo Sesc de São Paulo epela carioca RioArte. Sem o patrocínio dessas entidades, "nãohaveria a menor possibilidade de vermos esse Hamlet", afirma oprodutor e diretor gaúcho Luciano Alabarse, responsável pelosucesso das negociações que concretizaram a temporada da criaçãode Brook no Brasil. Com elenco multirracial integrado por Emile Abossolo-Mbo, Lilo Baur, Rachid Djaïdani, Sotigui Kouyaté, Bruce Myers,William Nadylam, Véronique Sacri e Antonin Stably, estaTragédie d´Hamlet retoma a produção inglesa que Brook fez domesmo texto, com atuação elogiadíssima de Adrien Lester (queesteve no Brasil com a companhia Cheek by Jowl). Estreado em 2000, Hamlet foi saudado por alguns críticoscomo uma espécie de ritual de passagem do encenador, suacerimônia de fechamento do século e do milênio. O espetáculo queveremos, com 2 horas e 25 minutos de duração, é uma produção da CICT/Théâtre desBouffes du Nord. Esse é o teatro ocupado por Brook desde 1974,quando o encenador inglês, já então considerado um dos maioresdo século 20, trocou Londres por Paris, criou um projeto deinvestigação teatral e deu início a nova fase em sua carreira. Sem limites - Até então, Brook já havia dirigido dezenasde montagens que fizeram época. Filho de russos, nascido naInglaterra em 1925, Brook é figura de proa de uma geração queexpandiu até a radicalidade os limites do espetáculo teatral.Para citar montagens suas que fizeram história, basta lembrarduas da fase londrina: Marat-Sade (1964), texto de PeterWeiss em que o diretor testou com sucesso idéias do "teatro dacrueldade", do francês Antonin Artaud, e Sonho de uma Noitede Verão (1970), comédia de William Shakespeare na qual Brookfundiu o teatro com artes circenses, dando início a umatendência cujos desdobramentos até hoje estamos testemunhando. Na fase parisiense, criou produções que deixaramevidentes as novas fronteiras que explorava, transitando pelasimplicidade, pelo foco absoluto no ator, e pelamultirracialidade dos elencos. Mahabharata, Os Iks, OHomem Que, O Terno, A Tempestade estão entre essasrealizações. Autor de vários filmes, entre eles Encontros comHomens Notáveis, O Senhor das Moscas, Mahabharata eRei Lear, famoso também como diretor de óperas, artistaadmirado por atores referenciais do porte do japonês Yoshi Oida,Brook é ainda escritor, e registrou suas reflexões teatrais emO Teatro e Seu Espaço, O Ponto de Mudança, A PortaAberta e Fios do Tempo, todos traduzidos no Brasil. Esta é a segunda criação de Brook que Luciano Alabarse esua empresa, a Mais Produções Artísticas, trazem ao Brasil. Hádois anos ele conseguiu levar, apenas para Porto Alegre, OTerno. Foi um feito considerável, que atraiu a atenção de todaa imprensa brasileira. Muita gente tentou trazer trabalhos deBrook para cá ao longo das últimas décadas. Uma das pessoas quemais lutaram para isso foi a empresária Ruth Escobar. Chegou aorganizar a vinda de Brook em pessoa ao Brasil, há duas décadas,mas não conseguiu fazer com que uma das encenações do artistafosse vista aqui. O sucesso da empreitada de Alabarse deve sercreditado à boa agenda que criou trabalhando com a produçãocultural, e especialmente teatral, no Rio Grande do Sul, ondedirigiu por vários anos o festival internacional Porto Alegre emCena. "Conheço a produtora de Brook", diz ele. "Chama-seClara Bauer, e é argentina." Esse contato tornou menoscomplicadas as negociações com a companhia tanto no caso de OTerno, quanto agora, com Hamlet. "Depois que ela foitrabalhar com Brook", acrescenta Alabarse, "ficou mais fácilconversar com sua equipe." Segundo o produtor brasileiro, osintegrantes da trupe de Brook "são tranqüilos e obsessivos.Todos educadíssimos, falam baixo, são muito gentis, têm uma aurazen-budista. Mas demonstram, sem exceção, uma obsessão magníficapelo trabalho. São profissionais de altíssimo nível, semqualquer dúvida". Há evidente rigor nas linhas pelas quais sepauta a equipe brookiana. Requerem da imprensa, por exemplo, quenoticie os nomes dos atores por ordem alfabética de sobrenomes.Não há estrelas na turma. Várias faces- A informação oficial é de que Peter Brooknão acompanhará sua companhia na viagem ao Brasil. Mas Alabarsepensa que talvez isso possa mudar. "Ele tem muita vontade devoltar para cá, e nos últimos dias surgiu um sinal de que talvezvenha com o grupo. Mas não há nada de certo nisso. Até onde sei,Brook não virá ao Brasil", diz. Esta não é a primeira vez queBrook monta Hamlet. Para ele, a peça permite umaredescoberta constante. "São facetas infinitas, como uma bolade cristal a girar no ar, mostrando a cada instante uma novapossibilidade", afirmou em entrevistas à imprensa européia. Embora Porto Alegre tenha sido a primeira e até agoraúnica cidade brasileira a ver uma produção de Brook, pois OTerno não passou por São Paulo nem pelo Rio, desta vez acapital gaúcha não receberá Hamlet. "É uma produção cara",afirma Alabarse, "com 18 pessoas na equipe, entre técnicos eartistas. E infelizmente não vamos poder mostrá-la em PortoAlegre por causa da questão financeira, mesmo. Sem patrocínio éimpossível. Por isso, quero ressaltar o papel do Sesc e daRioArte, que estão dando esse presente ao público brasileiro."

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