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Hamlet como pesadelo coletivo

Com um pratinho de plástico na mãos, o filho da noiva enche a boca de comida até ser incapaz de falar. Recusa-se a estar na mesa dos convidados. Senta em um canto, no chão. Só toma parte na festa para esbravejar, com uma lata de cerveja em punho, contra a mãe e seu novo consorte. Na versão de Hamlet assinada pelo diretor alemão Thomas Ostermeier não existe espaço para reverência ao clássico de Shakespeare. Nem para sutilezas ou pruridos históricos.

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES - O Estado de S.Paulo,

01 de junho de 2012 | 03h25

Atualmente em cartaz no teatro Schaubühne, de Berlim, a releitura do diretor é feita de gritos, lágrimas, som e fúria. Muita fúria. Teatro para turvar os olhos, embolar o coração e o estômago do público. São fortes as tintas que Ostermeier escolheu para pintar o seu príncipe da Dinamarca. Não à toa, a peça causou rebuliço quando foi apresentada na capital britânica, território do bardo.

O único cenário é uma mesa comprida, onde a rainha e seu novo rei celebram a união. Mas essa mesa, disposta sobre uma plataforma, vai deslizar pelo palco uma dezena de vezes durante a encenação. Por baixo dela, há terra. Quilos e quilos de uma areia escura e úmida que vai voar pelos ares. Sujar os atores. E, ocasionalmente, atingir as primeiras filas da plateia.

Com uma câmera na mão, o jovem Hamlet revela o seu tormento. Mostra o que o impele em sua sede de vingança. Assim como os temores e dúvidas que o fazem recuar em sua cólera.

Mesmo em tempos em que o uso de recursos audiovisuais no palco se tornou corriqueiro, impressiona a maneira como o encenador manipula as imagens. Gravadas ao vivo, elas são projetadas em uma cortina de fios dourados. Closes, apresentados em tamanho gigante, que recebem a interferência de outros elementos. Da boca da rainha Gertrudes, por exemplo, sairão insetos, animais peçonhentos, sangue. As alucinações de Hamlet estão diante de nós. Como adentrássemos em um pesadelo.

Ao revisitar os clássicos, o diretor conta que costuma fazer cortes, ajustes. "Não é para tornar uma obra diferente, mas para fazê-la mais afiada, mais radical." Um procedimento que aproxima tais textos dos nossos dias. Ou, quem sabe, serve para conduzir seus espectadores até o contato com uma espécie de dor essencial. Sem tempo e sem remédio.

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