Haja sacos!

No cinema, o smack dos beijos foi trocado pelo crunch-crunch de dentes triturando pipoca

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

24 Abril 2018 | 02h00

O cronista já foi menos antipático, dirá você ao se dar conta de que o assunto, desta vez, é pipoca no cinema, e mais, que a opinião do camarada, nesse particular, está longe de ser positiva. Ele gostaria que ainda assim você o acompanhasse até a última linha deste arrazoado, com a disposição de quem, esgotadas as pipocas, considera a possibilidade de encarar, lá no fundo do pacote, os piruás, ou que outro nome tenham esses grãos de milho que, mesmo submetidos a temperaturas abrasadoras, resistiram à pressão para explodirem em flores brancas comestíveis.

Seja dito que o cronista, tanto quanto você, adora pipoca, e que eventualmente as come às baciadas, chegando mesmo, numa devoração desvairada, a proporcionar aos circunstantes um espetáculo digno do mais indecoroso Pantagruel. Nunca o fez, porém, numa sala de cinema, ambiente onde sua abstenção pipocal se escora em numerosas razões, sendo a gordura do petisco apenas uma delas. Acha ele que nenhum guardanapo dá conta de eliminar integralmente os traços de manteiga - ou de óleo ordinário, nunca se sabe - que a pipoca fatalmente deixa na polpa dos dedos, resquícios untuosos que alguns (jamais você, é claro), em sub-reptícia esfregação, não hesitam em transferir para o braço da poltrona, e até para as bordas acolchoadas do assento sobre o qual, na sessão seguinte, outras nádegas haverão de se acomodar.

Há também, prossegue o antipático, a questão do cheiro, aquele mesmo que, no saguão do cinema, atiçou apetites, e que, na sala de projeções, veio a compor uma espécie de trilha olfativa do filme, ainda quando este tenha como tema as privações alimentares de um faquir. Comedores ou não, no escurinho estamos todos condenados ao odor gordurento da pipoca.

Fosse apenas isso, o cheiro - mas não: há também, ainda mais incomodativo, o inconveniente acústico, não só dos sacos de papel sendo escarafunchados por dedos gulosos, como também dos maxilares a triturar o que de lá os dedos extraíram. Talvez haja um pouco de nostalgia da parte de quem, em outros tempos, habituou-se à trilha sonora adicional, mais palatável, gerada pelos pares de enamorados cujos beijos, por vezes, de tão fogosos, chegavam a sugerir salva-vidas engalfinhados em procedimentos de mútua respiração boca a boca.

Nada contra, apressa-se o cronista em posicionar-se. Ele apenas lamenta que ao smack-smack dos casais se sobreponha o crunch-crunch dos mastigadores de pipoca - ruído quase sempre desencadeado, no início da sessão, pelo plec metálico de latinhas de refrigerante sendo desvirginadas em todo canto da sala. E, mais adiante, pelo fragor de pacotes, agora vazios, sendo reduzidos a bolas de papel, as quais serão em seguida, nem tão discretamente assim, postas a rolar sob a poltrona em frente.

Desconfia o cronista que os donos das salas não estarão gostando nada deste papo, de vez que, segundo informações confiáveis, a venda de pipoca em cinema chega a ombrear com a renda da bilheteria, ou mesmo a superá-la. Se assim é, não será impossível que aspirantes a carreiras empresariais estejam a pôr na balança: exibidor de filmes ou pipoqueiro?

Por muito tempo hesitou o escriba em tornar público o desconforto que lhe causa a ruidosa e olorosa comilança em que se transformou a aventura de ir ao cinema. Limita-se, quando muito, a buscar asilo nalgum ponto da sala onde não haja piquenique. Riscou do mapa as salas dos shopping centers, nas quais, a seu ver, em breve será indispensável apresentar, mais que um ingresso, um saco de pipoca. Em dia de pavio especialmente curto e plateia especialmente esfaimada, exasperou-se ele, em meio ao filme: “Gente, pipoca engorda!”. A saraivada de insultos que seu quixotesco protesto suscitou só não foi mais encorpada, supõe, porque incontáveis bocas, de gordos e de magros, estavam ocupadas em mastigar.

Se ele agora se anima a deixar por escrito o que pensa a respeito dessa comezaina, é porque acaba de ler uma crônica em que Carlos Drummond de Andrade, então com 25 anos, protestou - sob pseudônimo, é verdade - contra um fenômeno semelhante, que em 1927 infernizava a vida dos cinéfilos de Belo Horizonte, com o agravante de ser ainda tempo do cinema mudo. “A um ligeiro movimento que fiz”, escreve ‘I.’, “qualquer coisa estalou no chão”. Espalhadas no piso de toda a sala, era impossível não pisar em cascas de amendoim - bolotinhas do assumido agrado do jovem cronista, e às quais se atribuem propriedades afrodisíacas.

“Ora viva o amendoim”, saúda o poeta no verso que fecha O procurador do amor. Até por isso, quem sabe, recomendava ele a seus leitores: “Amigos, comei o vosso amendoim em casa, de pijama, chinelos e quarto fechado”. Das profundezas de sua insignificância, este cronista subscreve o que disse o mestre, apenas trocando por pipoca o amendoim. 

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